Vinte oito de novembro de 2007. Dezoito horas e quinze minutos da noite. Vinte e seis graus. Uma noite que começava a entrar para a história. A torcida do ABC chegava ao estádio de todas as direções. Em proporções gigantescas. Carros, motos, onibus, bicicletas e etc. Os torcedores saiam de todas as partes da cidade. O congestionamento ia do estádio Frasqueirão a avenida Roberto Freire. As cores de Natal, era o preto e branco. O traje, uma camisa ou algum acessório que fizesse menção ao time do povo. Nesse clima de indecisão, tensão, expectativa e esperança, chego ao arredores do estádio. Um cambista me oferece um ingresso, chega outra e dimunui a oferta; mais um chega e diz que cobre a oferta do outro. Eu respondo: já comprei o ingresso, obrigado! Sigo meu caminho e vejo um senhor ouvindo rádio e tomando uma cerveja. Em sua face o sonho e aquela que morre por último, a esperança. Ao mesmo tempo sinto a desilusão em seus olhos, o jogo não começou.
Encontro meus amigos, e com eles abro uma cerveja. Começa a análise do jogo. Uns confiantes demais, dizem que irá da tudo certo. Outros dizem que estão mais preocupados com os resultados que precisamos, do que com o jogo desta noite. Outra cerveja, e chega a hora de pagarmos a conta e se encaminhar para o portal ‘C’. Entramos juntos com a bateria da torcida. A áurea não é tão boa quanto a do último jogo em casa, contra o Nacional de Patos. O estádio começa a ficar cheio. Torcedores distribuem rolos de papéis, aqueles que são atirados em campo quando as equipes entram.
São dezenove horas e trinta minutos. Antes, vamos a situação do jogo. O ABC precisava ganhar o jogo contra o Bragantino. E o Vila Nova de Goiás, ou o Atlético, também, de Goiáis não podiam vencer. Porém isso, era meio, digamos que, improvável. Pois o Vila Nova jogava em casa contra o Nacional de Patos, último colocado. E o Atlético jogava com o Barras no Piauí, penúltimo na classifação.
Começa o jogo em Goiás, e no Piauí também. O Bragantino entra em campo debaixo de vaias. Expectativa. As crianças cercam o túnel de acesso ao campo. Tinha tanta criança dentro do gramado que parecia uma crechê. Algumas vozes se manifestam, ainda não é o mais querido. O estádio explode, os rolos de papel voam pelo céu e caem no gramado. As crianças correm, a imprensa faz o mesmo. Fogos. Desce o bandeirão alvi-negro. Canta-se: ‘vamos subir becÊÊÊÊ’. Mais uma vez, todos no Maria Lamas Farache, ficam emocionados. Sobe o bandeirão. Fumaça e muito, muito papel no campo. O time alvi-negro volta-se para todos os lados da torcida. Wallison aparece junto a grade, a torcida grita seu nome. Ben-Hur vem a grade, bate nas veias do braço e agita a torcida. Vai começar.
Começa. O jogo segue sem muita pressão. O ABC está impaciente, fruto da impaciência da torcida. O Bragantino faz faltas sucessivas e começa a gostar do jogo. O time paulista perde algumas chances, essas apavoram a torcida. O ABC começa a crescer no jogo. Mais falta. Algumas chances de gol. Os torcedores das cadeiras começam a pular. Do lado direito as pessoas se agitam. Não entendo, o jogo está normal. Todos se voltam para o lado esquerdo, onde está o placar eletrônico. Gol do Barras. Explode, pela primeira vez na noite, o Frasqueirão. A torcida inflama. O time também. Falta para o ABC, é distante, mas é uma boa oportunidade. Viro para o lado e digo: se passar da barreira é gol. O juiz apita, a bola passa da barreira… Gol. Explode o estádio. Treme. Pessoas se abraçam. Outras fazem o mesmo e caem. Fogos. Vamos subir becê… Termina o primeiro tempo.
O tempo passa, o intervalo termina. O ABC volta a campo. Começa o segundo tempo, e tudo até então garante a classificação. O tempo passa, a torcida comemora. Uns, como eu, estão preocupados. O ABC não pressiona o Bragantino. O jogo fica perigoso. Escanteio. A torcida vibra minutos antes. Gol do Barras. Agora é segurar o jogo e subir para série ‘B’, depois de tão longos e sofridos seis anos. Escanteio. O time de Bragança corre todo para a área. A bola viaja da lateral direita para grande área. Silêncio, Gol. Na verdade foi gol e, logo em seguida, silêncio. Alguns mais confiantes tentam agitar a torcida. O silêncio permanece. Estamos fora. O tempo passa, faltam 15 minutos, parece que a noite alvi-negra irá se tornar um inferno; o sonho começa a virar pesadelo. O time não consegue furar a retranca paulista.
Bola dividida no meio campo. Juninho Petrolina vence a dividida e dispara. Para, e lança o garoto, já vendido para o Atlético do Paraná, Wallisson. O garoto corre. Suas canelas são velozes, ele domina. O zagueiro adversário se aproxima perigosamente, tentando no mínimo ser herói. Todos gritam: ‘chuuuuttaaaaaa’. Wallison não chuta. Faz melhor, corta o zagueiro que passa em um carinho, que seria salvador se um dos 13.209 torcedores estivessem em seu lugar. Wallison corta. Um corte desconcertante; Um corte avaçalador, histórico. Wallison corta para a direita e chuta. O goleiro atento pula. A bola, atravessa, passa pelo goleiro, passa rente a trave… Gol. O gol da classificação. O gol salvador. O Frasqueirão explode, quase literalmente. Treme. Pessoas caem, choram e se abraçam. Batem no peito e gritam, o grito mais longo de uma torcida, gol. Passam sessenta segundos, e a torcida grita, ainda, gol. O bandeirão desce e sobe.
O jogo se aproxima do fim. Desço as arquibancadas quando o quarto árbitro sobe a placa, mostrando dois minutos de acréscimo. Desço e comprimento todos por onde eu passo, homens feitos, de 50, 45, 26, 18 anos de idade choram e se abraçam. Vai acabar. A torcida canta, chego enfim a chão. Corro para trás do gol. Abraço um amigo que diz que merecia aquela classificação. Sensível e solidário, choro junto. Acabou. A torcida pula a grade. Invade o campo. O portão de acesso ao gramado é aberto. Pessoas bolam no gramado. Subo na grade. Outras pessoas andam de joelho, outras sobem na trave. Um casal se beija, ambos chorando e com a camisa do mais querido. Os jogares saem do gramado. Wallison, sobe na grade, e é posto nos braços da torcida. Ao som do hino do ABC todos comemoram, eu saio do estádio.
Lá fora um trio elétrico nos espera. Banda. Gente. Muita gente. O trio sai. A banda toca. Os carros buzinam. As pessoas correm. A banda toca. São dez e quarenta e três minutos. Eu continuo a acompanhar o cortejo. Mais carros, e a cada metro mais gente. A festa promete ir até de manhã. A cidade, sem dúvida é alvi-negra. Dali a poucas horas começaria o carnatal, o maios carnaval fora de época do mundo. São vinte e três horas e cinquenta e dois minutos de uma noite histórica. A maior torcida do Rio Grande do Norte, antecipa o carnatal e comemora ao som do Araketu. Eu, como um homem responsável, vou para minha residência. Antes, passo em um bar e tomo algumas cervejas com meu irmão. Juntos, baixamos a adrenalina e seguimos em nossa direção. O dia acabou quando deitei na cama.
No dia seguinte, os jornais mostravam como tinha sido a festa. A televisão revivia aqueles momentos e eu no trabalho, estava feliz. Com ressaca de vitória. Com a ressaca da classificação. Aliviado e muito feliz por ter presenciado uma noite épica, uma noite que entra para história. A classificação para a série B é de tamanha importância, mas a forma é que dá importância para as coisas. Quinze jogos em casa, quatorze vitórias. Você subiu BecÊÊÊÊÊÊ…
Escrito por mediaalternativa
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