A astúcia política do prefeito

Julho 12, 2008

Laurence Bittencourt Leite*

 

Quem acompanhou ou leu a sabatina com o prefeito Carlos Eduardo realizada pelo site “No minuto” do jornalista Diógenes Dantas, viu uma peça insuperável, a meu ver, de contradições e incoerências. Ao final, mais uma vez, ficamos com a certeza de que o jogo político rigorosamente é uma montagem onde cabe tudo, menos ética. Claro que em um estado como o nosso, não há nenhum problema em sabermos e pior, convivermos com a política sendo ela o campo da mentira. Nenhum. E diria mais: o campo da mentira, da corrupção, da falta de moral e ética, o que inclui, óbvio, os desvios de recurso públicos.

 

Respondam uma coisa: diante do roubo constatado como foi o “Foliaduto”, a “Operação ouro negro” e todos os escândalos de corrupção passados e presentes, na esfera federal, municipal, e estadual, qual a moral que essa gente que se diz “autoridade” tem para exigir que esse país seja um país ético? Isso explica rigorosamente porque a segurança pública não funciona. Nem irá funcionar. Essa gente não tem moral para mandar prender um ladrão de galinha, porque o roubo começa e é praticado por eles ou seus familiares. E no entanto, o prefeito diz na Sabatina que o Rio Grande do Norte não deve ceder às pressões econômicas. Que o fator “dinheiro” não deve prevalecer. Meu deus!

 

Ora, ora. Mas quem está falando isso? O prefeito, exatamente ele, que está usando o partido político para seus próprios interesses, e que irá usar (leia-se recursos do pobre do contribuinte) a máquina pública municipal, com o apoio da estadual e federal nas eleições municipais deste ano. A falta de ética desta gente é simplesmente insuperável e alarmante. E já se começam a formar as torcidas organizadas para torcer que os marqueteiros consigam levar a vitória para o lado de Fátima Bezerra. Meu deus! Quanto de recursos (alguém duvida que seja do contribuinte? Mas a frase do prefeito é qualquer coisa de impar) irá se pagar para “conseguir o objetivo”, de se chegar ao poder? E tome desvios, e tome uso da máquina, defendido pelos mesmos, que, claro, se beneficiam do jogo político. É duro. É dose. Nada muda.

 

Mas a Sabatina trouxe à tona a desfaçatez com que se joga o jogo político em nosso estado, município e país. O prefeito querendo impor o acordão, e levar por imposição o deputado Rogério Marinho a aceitar “democraticamente” a imposição, usou como argumento o fato de os partidos políticos no Brasil serem siglas a serviço dos “caciques”. Estaria falando de quem, o prefeito? Dele próprio? Claro. Mas o cumulo da desfaçatez é ele dizer isso, como se fosse uma critica, mas no entanto, na hora em que pode dar um avanço para combater essa total e absurda “falta de partidos”, ele apenas joga o mesmo jogo, porque está se beneficiando.

 

Não analiso aqui o candidato Rogério Marinho, mas afirmo que o seu gesto é louvável e legitimo, e torço sinceramente para que ele saia vitorioso da convenção, embora eu saiba difícil, porque o uso do “dinheiro” (ah, a frase do prefeito), e da “máquina” (que representa também o dinheiro) vá ser usado pelo prefeito, governadora e os seus seguidores para impor o acordão. Incrível que nessa história da candidatura ou não de Rogério, os argumentos dos defensores do acordão sejam tão autoritários, antidemocráticos, e anti-partidário, sem qualquer explicação plausível, a não ser o de interesses mesquinhos, pessoais, financeiros, etc, etc.

 

A nossa política é realmente vergonhosa. E pior: um gesto tão legitimo como outro qualquer, o de Rogério em pleitear sua candidatura dentro do partido, é mostrado como “gesto de rebeldia”. E isso em partido chamado de “socialista”. Imagine! E os que acusam de “gesto de rebeldia” são os mesmos que aplaudiram (e usaram no marketing) o gesto da atual governadora quando decidiu ser candidata ao governo “contra tudo e contra todos os caciques”. Mas agora, a “guerreira” virou cacique, e usa contra um direito legitimo os mesmos argumentos que os seus opositores usaram quando ela teve que se rebelar. Nunca esteve tão presente a frase: “o revolucionário de hoje, é o reacionário de amanhã”. Essa história vergonhosa não se repete apenas uma vez, enquanto farsa, mas permanentemente aqui em nosso estado. Todos os países que foram para frente tiveram que fazer revoluções, rebeldias sistemáticas. Aqui entre nós, vivendo sempre o mesmo retrocesso, nunca aprendemos com o passado, apenas o repetimos, mudando apenas os jogadores que buscam meramente os seus interesses pessoais. E a população pagando a conta. Como isso é velho.

 

*Laurence Bittencourt Leite é jornalista, professor da Universidade Potiguar e admirado por muitos alunos, inclusive por mim. Além disso, ele me deu 8 na primeira etapa do TCC em Jornalismo. Texto publicado, inicialmente, no O Jornal de Hoje e cedido, gentilmente, a esse blogueiro.