Botemos o Machadão no chão

Bruno Rebouças

Uma grande discussão começou em Natal devido a Copa de 2014. A primeira coisa que uma cidade deve ter para ser agraciada como sub-sede de uma Copa do Mundo, é um bom estádio. As partes secundárias, e não menos importantes, devem ser: bom trânsito, estrutura na saúde, bons hotéis e muito, mas muito mais coisas. Em Natal foi apresentado, inicialmente, um projeto de um estádio em formato de Estrela, que logo recebeu o apelido nada convidativo de ‘Estrelão’. Capacidade inata de brasileiro, acrescentar o aumentativo nos Estádios nacionais. Tudo bem, deixemos isso de lado. Posteriormente, me aparece um mega-hexa-projeto de um estádio, além da construção de um moderno e grande complexo esportivo, turístico e comercial, onde hoje está localizado o estádio Machadão, o ginásio Machadinho, Centro Administrativo e o Cartódromo.

Isso custará, simplesmente, 1,2 bilhão de reais. Só o Estádio das Dunas, nome tão feio quanto ‘Estrelão’, custará 300 milhões. E advinha quem irá pagar? Você, eu, seu pai, seus irmãos, seu vizinho. É um gasto que muitos diriam: ‘vale a pena’.

Ser a favor que a capital do Rio Grande do Norte seja sede, todos somos. Mas o que começo a questionar por essas linhas é se vale realmente à pena gastar 1,2 bilhão de reais, tendo em vista que como a Vila Olímpica do Pan-americano, o estádio ficará as baratas por aqui, após a Copa. Os colunistas esportivos, alienados, dizem que a estrutura fica. Fica para quem? ABC e Alecrim, América e Potiguar, ou o super clássico, Potiguar de Parnamirim e Alecrim? Nada contra essas equipes, pelo contrário. Mas o que tento dizer é que não vale a pena fazer um estádio tão maravilhoso, para não comportar grandes jogos. O projeto foi desenvolvido pela mesma empresa que arquitetou os estádios de Wembley e o Emirates Stadium, ambos na Inglaterra. Como manteremos uma estrutura dessas, numa cidade, em que, sua própria Seleção não faz questão de jogar?

Pensemos bem. O RN está entre as três piores educações do Brasil. A saúde está em colapso e Calamidade Pública foi anunciada pela prefeita Micarla. As ruas esburacadas causam transtornos a todos nós. A estrutura viária da cidade é de envergonhar. Será que Natal não tem coisas mais importantes a pensar do que uma Copa do Mundo? Como disse Jânio de Freitas, na Folha de S.Paulo, essa é a Copa da Leviandade, na qual todos os governantes e prefeitos tentam maquiar suas cidades e Estados para esconderam a realidade do cidadão. “O que vimos até o momento é uma bela maquete eletrônica. Com os programas avançados que temos hoje em dia é bastante fácil preparar uma maquete dessas. Uma proposta desta magnitude não pode ser feita sem um projeto executivo, ou seja, um documento que contenha todos os elementos necessários à execução da obra”, explicou o engenheiro José Pereira da Silva, responsável pelo cálculo estrutural do Machadão.

Reforma ou Construção?

Outra discussão secundária dentro desse tema é a derrubada do ‘glorioso’ Machadão. Os saudosistas e os que idealizaram e construíram são contra. Vamos aos fatos. Edno Sinedino (colunista do NoMinuto.com) anda dizendo que o estádio tem muita história e não pode ser derrubado. O que acho é que tem muito gente metendo a colher onde não deveria. Wembley era o estádio mais antigo do mundo. A seleção da Inglaterra, dona do Estádio, venceu sua única Copa do Mundo jogando lá. Fato de extrema importância para os ingleses. Quando o estádio fez cem anos, o que fizeram? Reformaram? Não, construíram outro devido aos custos. Era mais em conta fazer outro estádio com uma modernidade de tirar o fôlego, a ter que reformar. O grandioso Machadão foi reformado uma única vez em trinta anos e para quê? Apenas para gastar dinheiro, pois continuou a mesma coisa de antes, ou seja, ruim. Com o gramado esburacado e coisa tal. Na fachada jogaram cimento e pronto: estava concluída a reforma.

Caso venhamos a ser sede de uma Copa do Mundo, espero que criemos uma consciência, ao menos uma vez, desenvolvida e desistamos da idéia de reformar e adequar um estádio que não serve mais para nada. Só para show de Padres e Pastores, além dos clássicos ‘reis’ do Estado.

Os idealizadores da obra eu até compreendo que não queiram a derrubada. Ver um trabalho seu no chão é péssimo. Mas não devemos ser tão egoístas a esse ponto. Preferir ver um estádio decadente reformado para nada, a ver um grande projeto com uma estrutura singular.

Não quero que vocês achem que sou contra a Copa vir para Natal, sou contra apenas a construção de um complexo que custa 1,2 bilhão de reais. A esperteza e a corrupção, costumeira no Brasil, vão vingar nessa dinheirama toda. E o governo já embarca na onda e quer para si, um novo Centro Administrativo. Não me façam de palhaço, pois não sou. E no que depender de mim, o cidadão não será também. Sem a construção de um novo Centro Administrativo, para o Governo do Estado e a Prefeitura luxarem em salas ufanas, suas pífias administrações, o projeto cai seu valor pela metade. E não estou disposto a pagar a conta do conforto e da incompetência governamental.

Amigo, a Copa não é para você

A secretária estadual de esporte, Magnólia Figueiredo, dizendo que a escolha pela construção de um novo e amplo complexo esportivo em vez de apenas revitalizar o Machadão, se dá pelo fato de uma possível parceria público-privado. “A proposta para readequar o Machadão às exigências da Fifa dificultaria a realização dos projetos. A construção de um grande complexo esportivo, comercial e turístico foi, sem dúvida, a melhor opção para Natal”, disse Magnólia ao jornal Tribuna do Norte (01.02.09).

A chave do negócio está aí. Caso a parceria público-privado aconteça a construção sairá antes do tempo necessário. Mas aí vem o tal do lucro. E como o setor privado tira o dinheiro que gastou com um empreendimento? No caso de estádios, é vendendo camarotes, cadeiras cativas e com a venda de ingressos. Aonde quero chegar com isso, leitor, é que teremos que rezar muito para que os ingressos da Copa do Mundo em 2014 sejam comercializados em reais, possibilidade que eu não acredito. A Fifa destina uma companhia para vender os ingressos. A princípio eles são vendidos na moeda do país sede, mas a ganância e a importância de se lucrar em cima de tudo, farão com que o cidadão comum, aquele que não faz parte de uma elite privilegiada, não compareça a nenhum jogo, vendo tudo na sua Televisão, como sempre fez em outras Copas.

Sou contra a construção do complexo e dos gastos de 1,2 bilhão de reais por achar que a cidade precisa de coisas mais importantes, como Hospital e Médico. Mas, caso tenhamos que sediar a Copa, devemos construir um novo estádio e não reformá-lo. Deixemos de ser saudosistas, antiquados e bajuladores. Botemos o Machadão no chão sem mais delongas.

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