Senadores gastam mais de R$ 330 mil reais com gasolina

Setembro 28, 2009

De junho a agosto, senadores consumiram 18 anos de combustível

[Bruno Rebouças, jornalista 

 

Quando o time perde, torcedores invadem o gramado, vestiário. Ameaçam famílias e matam pessoas que torcem por outra equipe. Quando o assunto é político, 98% da população brasileira não se rebelam com tanto vigor. Sarney decretou mais de 600 atos secretos e nada aconteceu. Lula faz suas cagadas e alguns criticam. Como tem a imprensa em suas mãos os políticos não sofrem pressão da maior parte da imprensa. Logo, não são pressionados de maneira efetiva por parte da população, que está mais preocupada em chegar em casa com segurança, ou em o que dar para o filho comer no outro dia. Justo, já que vivemos num país miserável, onde 54 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza; fora a taxa gigante de analfabetos.

O fato é que, se fossemos um povo mais politizado todas as falcatruas dos políticos, os 512 picaretas da Câmara e do Senado que nos enganam e levam nosso dinheiro para gastar ao bel prazer deles mesmos, seriam expulsos do parlamento. Como torcedores da Portuguesa fizeram, quando invadiram os vestiários armados e ameaçaram jogadores, o mesmo deveria ser feito com senadores e deputados quando esses armam seus golpes diante do povo.

O mais novo fato em evidência no Congresso Nacional é o valor da verba indenizatória dos senadores de R$ 15 mil reais. Destaque para o valor pago em gasolina. O novo portal R7 fez uma conta considerando o gasto de gasolina por um taxista em São Paulo, que anda em médio 200 quilometros por dia e gasta para encher o tanque R$ 1.485 por mês. A quantia que os senadores consumiram em apenas três meses seria suficiente [sente para não cair], para esse mesmo taxista andar 18 anos com o tanque cheio.

O portal R7 ainda está disponibilizando dicas para como fiscalizar [clique aqui] os senadores em relação a tal verba indenizatória. O campeão em gasto de gasolina, senador Gilberto Goellner [DEM-MT], queimou 10 vezes mais que um taxista utiliza num mês. A lista é bastante grande. Gilberto Goellner justificou dizendo que utilizou R$ 26 mil reais em combustível em viagens ao interior do Mato Grosso. Vale lembrar que senador, não paga gasolina em Brasília, pois tem um carro oficial a sua disposição com motorista. Esses gastos com gasolina foram feitos nos Estados, onde os senadores foram eleitos.

A maioria dos senadores justificaram da mesma forma que Goellner, declarando viagens pelo interior, audiência pelo estado e mais e mais blablablá. Nenhum deles, porém, declarou que esse valor foi gasto em apenas um posto de gasolina em seus estados. O que demonstra um favorecimento a um único grupo empresarial do setor.

Que o Rio Grande do Norte está em evidência política e prestígio nacional ninguém duvida. Mas é consenso que para conseguir garantias e melhorias para a população do Estado os Senadores e Deputados Federais não agilizam nada. Só conversam com autoridades do governo, quando vão pedir apoio em campanhas e virar sede da Copa.

A evidência desses nossos políticos é tanta que entre os dez senadores que mais gastaram, estão Garibaldi Alves e José Agripino. O senador Garibaldi, motivo de zoação pela imprensa, quando era presidente do senado, gastou R$ 10.752,06 com gasolina no RN, sempre no mesmo posto: Zumba Petróleo LTDA. Agripino gastou R$ 8.964,68, também, sempre no mesmo posto: Flor & Cia LTDA.

É revoltante essa situação, ou até mesmo engraçado. É claro que a graça está no humor negro. Porque é fato que enquanto os políticos nos zoam, crianças não são atendidas no Walfredo Gurgel que terá sua pediatria fechada, de forma arbitrária pelo governo do estado, assim como o Hospital Santa Catarina. Enquanto os senadores queimam uma quantidade de combustível absurda, pais de famílias morrem quando voltam do trabalho por falta de segurança.

A população é esquecida por esses políticos que tanto lutam para ter essas regalias que o Estado lhes dão. Em 2010, eles lembrarão de você, somente. Não esqueçam eles. E dê sua resposta com o seu voto, dizendo não ao projeto político de cada um deles. Governadores, deputados estaduais e federais, senadores e presidente. Que no conjunto da obra só defendem os interesses deles e dos seus currais políticos.

Confira os 10 primeiros colocados:

1. Gilberto Goellner (DEM-MT) – R$ 26.254,68

2. Marconi Perillo (PSDB-GO) – R$ 16.474,31

3. Expedito Júnior (sem partido-RO) – R$ 15.016,00

4. Augusto Botelho (PT-RR) – R$ 13.721,61

5. Mário Couto (PSDB-PA) – R$ 13.581,23

6. Magno Malta (PR-ES) – R$ 13.169,15

7. Mão Santa (sem partido-PI) – R$ 11.117,83

8. Garibaldi Alves (PMDB-RN) – R$ 10.752,06

9. Cícero Lucena (PSDB – PB) – R$ 9.808,15

10. José Agripino (DEM – RN) – R$ 8.964,68


Recordes e mais recordes

Setembro 22, 2009

 [Bruno Rebouças, jornalista

 

O Rio Grande de Norte está orgulhoso. Orgulhoso de ser sede de uma Copa do Mundo que será realizada apenas em 2014, da qual, quase todos nós veremos os jogos pela televisão, assim como fizemos toda nossa vida. Digo isso porque, fazendo uma comparação simples, em 2006, na Copa da Alemanha, um ingresso custava mil euros. Convertendo para reais, nossa singela moeda, dá incríveis três mil reais. Ou seja, cinco vezes e meio a mais que o seu salário mínimo de R$ 465.

Enquanto todos os políticos fanfarrões posam na foto, abraçados querendo herdar o projeto de sediar a copa, o caos da saúde aumenta a cada dia, agora com o possível fechamento da pediatria do hospital Santa Catariana, na Zona Norte. Enquanto milhões serão gastos num estádio de nome, horroroso, Arena das Dunas; tem gente morrendo na fila do hospital. Pessoas, como você, que depende de ônibus sendo assaltado e vivendo do medo.

Enquanto uma comitiva da prefeitura viaja para Portugal com o seu dinheiro, você economiza no café da manhã para poder jantar; enquanto eles, os donos do poder não dão a mínima para as necessidades básicas da sociedade, que é garantido na Constituição de 1988, saúde, moradia, emprego, segurança e alimentação. Você escolhe se come ou se deixa seu filho comer.

Enquanto políticos negociam o apoio do presidente Lula para seus candidatos a prefeitura de Natal e não o fazem para conseguir verba para o desenvolvimento do estado ou para dar suporte as enchentes no Vale do Assú, seu salário é levado por bandidos nos quatro cantos da cidade. Enquanto o senador Agripino e o eterno e inútil deputado federal Henrique Alves negociam com Ricardo Teixeira, presidente da CBF, Natal como sede, a filha de algum homem, trabalhador, é estuprada num terreno baldio.

Enquanto a governadora decide quem apóia ao governo em 2010, a grande imprensa omite a maioria dos fatos. No RN, de cada cinco pessoas, uma é analfabeta. O RN da copa de 2014 é o 5º estado com a maior média de analfabetos do Brasil. A média brasileira é de 19,4%, o que já um absurdo. A média do RN está em 20,74% o que é mais absurdo ainda para um estado que tem 2 milhões de habitantes.

Em julho, saiu uma pesquisa feita pelo IBGE que dizia que o RN era o 6º estado do Brasil com mais crianças analfabetas. Agora somos o 5º estado com a maior média de analfabetos do Brasil. E ninguém interpela a prefeita ou a governadora sobre isso. Essa omissão da imprensa é de fazer vergonha, mas eles cumprem seus papéis, que é manipular e iludir a realidade dá população.

Os saudosistas não podem dizem quer é incapacidade das crianças ou dos adultos. É insensibilidade dos políticos. Porque insensibilidade e não inutilidade? Porque os políticos, esses grupos que tomam contam do poder, fazem tudo proposital. A falta de educação, o não direito a informação perpetua mais e mais analfabetos. Os bolsas famílias da vida acomodam mais e mais pessoas, que são refém do estado. Por isso insensibilidade e não inutilidade.

A causa deles é legitima e proposital. Quanto mais pobre, mas explorados. Quanto mais mendigos, mais assistência. Mais assistência, mais voto. Mais voto, mais poder e dinheiro para os políticos. O Brasil bate recordes e recordes de fatores negativos, desemprego, desigualdade, fome, injustiça. O RN segue o mesmo caminho, já que nossos políticos não servem para outra coisa a não ser ganhar nosso dinheiro e gastá-lo com coisas que nós, simples mortais, nunca gastaremos um dia.

Por fim, não se trata da incapacidade dos analfabetos. Eles são frutos da má qualidade das escolas, dos professores e do sistema de ensino. Trata-se da insensibilidade nata dos governantes, que se negam a valorizar os educadores e a estruturar uma escola pública de qualidade. Governo vai e vem e o futuro se perde na falta de perspectiva para 54 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. Falta querer acabar com o exército de miseráveis existente em nosso país, e que começa a se formar em nosso estado.


O Coletivo

Setembro 18, 2009

O Coletivo Foque de Comunicação [www.foque.com.br] agora tem um jornal semanal feito de muito suor, e por enquanto nenhuma lágrima. Os revolucionários da mídia, estão metendo a cara e produzindo um jornal, intitulado de O Coletivo, que segunda-feira estreia sua segunda edição. A primeira edição foi um sucesso e de todos os jornais impressos, no total de 1.000 foram entregues, em paradas de onibus, sinais de trânsito, universidades, bancas de jornais do centro de Natal, sindicatos e centrais sindicais.

Logo mais, os jornalistas disponibilizarão o espaço para assinaturas. Não deixe de fazer a sua. Custará apenas 10 reais por mês e você recebrá 4 edições mensais. Colabore com uma imprensa livre. Vista a camisa do Coletivo Foque de Comunicação.


INDEPENDÊNCIA DE QUEM?

Setembro 11, 2009

O Brasil completa 187 anos de independência. Mas de quem é essa independência? Dados do IBGE revelam que 53 milhões de brasileiros ‘livres’ vivem abaixo da linha da pobreza

[Bruno Rebouças, jornalista e editor

 

Sete de setembro de 1822. Dom Pedro I grita às margens do rio Ipiranga a independência do Brasil e liberta o país das amarras de Portugal. Poucos países no mundo não guerrearam para conseguir sua liberdade. O Brasil foi um deles. Posso ser injusto com os negros, escravos, abolicionistas e intelectuais que fizeram pressão para o fato acontecer. Mas é assim que os livros oficiais e a grande imprensa fazem com os nossos heróis. E durante os quase dois séculos da declarada independência, ouvimos a glorificação de um único homem como o responsável pelo livramento de um país explorado. 

Quase dois séculos depois a independência ainda não veio. Votar para presidente é apenas um detalhe numa democracia. Outra coisa que a democracia exige, mas a grande imprensa não divulga, é a troca do poder. A perpetuação do poder pelos políticos sejam vereadores, deputados e presidente é ditadura. Uma coisa aberta, disfarçada, mas é. É assim com os governos de frente popular, como o presidente Lula. É assim com o presidente da Assembléia Legislativa, deputado estadual Robson Faria, que está há 15 anos no mesmo cargo, presidente da casa. Com a governadora Wilma de Faria que se perpetua no poder, de forma seguida, há 15 anos. Liberdade de escolha e de ir e vir são outras teses da democracia que os partidos neoliberais e a grande imprensa tanto pregam, mas que não são cumpridos, nem denunciados. 

Quando Dom Pedro I gritou a independência, talvez ele tenha imaginado um país prospero, porém a abolição dos escravos só veio em 1888, então não se engane. O grito de independência não foi para libertar um povo, e sim, como acontece hoje, para esfriar os ânimos dos seus correligionários. Como diz um celebre samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira, Cem anos de liberdade, realidade e ilusão, “Hoje dentro da realidade, onde está à liberdade, onde está que ninguém viu”. 

“SOU BRASILEIRO, SOU PATRIOTA, MAS EU NÃO SOU IDIOTA” 

Em sete de setembro de 2009, um grupo de 150 estudantes, em Brasília, fizeram manifestações e gritaram sábias palavras como as do subtítulo. Porque no Brasil se criou uma cultura de que não somos patriotas. E vendo Brasil e Argentina, na TV, quem estava torcendo pela Argentina foi chamado de antipatriota. Sempre pensei que ser patriota é muito mais que torcer pela seleção ou para nossos atletas nas olimpíadas. Creio que ser patriota não é morrer pela pátria e viver sem razão, como cantou Geraldo Vandré, em 1968. A máxima de ser patriota é defender que as nossas riquezas fiquem para o nosso povo. Um exemplo mínimo é a produção do Melão, do RN, na qual 90% da safra são exportadas, deixando para os potiguares os outros 10%, das quais 5% estão podres. Patriota não é desfilar em sete de setembro e aplaudir autoridade que está na sombra do palanque, enquanto os que fazem esse país queimam ao sol. E ser patriota, não é aplaudir militares que mataram e aterrorizaram nosso país durante 20 anos. Certo que muitos a desfilar não o fizeram, mas herdam a nossa antipatia. 

E não saber cantar o hino nacional, como diz alguns jornalistas ignorantes, não é falta de patriotismo ou burrice. É falta de investimento na educação dos governos que os avestruzes defendem. Em Artigo a revista Carta Capital, Luiz Gonzaga Belluzo, economista e presidente do Palmeiras diz claramente:

“[...] espírito de classe da maioria da imprensa brasileira. Não se acomoda na sua militância a favor de privilégios para os mais ricos [...] E, como todos sabem, não é o partido do povo brasileiro. Ela não toma partido a favor de quaisquer projetos que beneficiem as maiorias, as multidões. Seus olhos estão permanentemente voltados para os privilegiados”. 

Não é você que é antipatriota. É o governo. É o presidente. É a prefeita. São os deputados. Os vereadores fanfarrões. Você não saber canta o hino nacional é culpa deles que junto com o presidente destinam 10 bilhões de dólares para o FMI, que explora esse país há mais de 50 anos. Em vez de investir na educação, saúde e moradia. Segurança. Geração de emprego. 

Patriotismo é lutar pela melhoria do seu povo e não pela melhora do saldo dos cofres dos Estados Unidos e Europa. Patriotismo é lutar para o irmão não morrer de fome, e não enriquecer o banqueiro e dono de multinacional. 

Os escândalos políticos demonstram a liberdade nesse país. Enquanto um desempregado, pai de família rouba uma lata de leite para alimentar sua filha e é condenado a três anos de prisão, um senador, deputado, vereador, com a maldita imunidade parlamentar, é absolvido dos roubos que comentem, em cifras 200 vezes maior. Se o trabalhador falta ao trabalho, é descontado no seu salário, quando não é demitido. Na última sexta, 04.09, o Congresso Nacional perdoou 85% das faltas ao trabalho dos Deputados e Senadores. Você é independente? 

INDEPENDÊNCIA , MORTE E MERDA 

De cada dez brasileiros um não sabe ler e escrever. Parece pouco. Mas multiplique esse valor por 180 milhões de habitantes. Dados do IBGE de 2000 revelam que 30,5% da população são analfabetos funcionais. Aqueles que só escrevem o nome e bilhetes simples, mas não entendem o que leem. No Brasil, 53 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, com aproximadamente, 30 dólares por mês. Vito Ginnotti, em seu livro, Muralhas da Linguagem [2004], alerta e indaga: 

“Esses 53 milhões não são os únicos candidatos naturais ao analfabetismo de fato. Há outra faixa que lhes fica bem próxima. São os 85 milhões de brasileiros e brasileiras que vivem, de acordo com levantamento do IPEA, de 1999, com até dois salários mínimos. Alguém acredita que quem tenta sobreviver com até dois salários mínimos entrou alguma vez numa biblioteca, livraria, cinema, teatro ou algo parecido?”. 

No ano de 2002, o IBGE concluiu que 81% dos brasileiros não terminaram o Ensino Médio, o segundo grau como é mais popular. Ou seja, cerca de 145 milhões de pessoas. Então, em 7 de setembro nós não temos o que comemorar. Deveríamos entra em luto, ou em depressão profunda. Pois como um país gasta 4 bilhões de dólares num helicóptero, enquanto seus filhos pedem dinheiro nos sinais, passam fome e morrem de frio embaixo de marquises de lojas luxuosas? 

A questão não é independência ou morte. É morte para você trabalhador, independência para a minoria rica, poderosa e que vive nas amarras do governo. E merda para o restante da população, analfabeta e funcionais, que não cantam o hino nacional e que morre de fome, de frio e que de vez em sempre acham uma bala perdida. 

“PAZ NO FUTURO E GLÓRIA NO PASSADO?” 

Quando Dom Pedro I gritou a independência do Brasil com apenas cinco testemunhas, ele não libertou um país. Libertou os ricos da exploração portuguesa, pois os trabalhadores continuam sendo explorados até hoje e cada vez mais, vivendo uma das maiores cargas de trabalho do mundo. Além de pagar mais imposto que qualquer outro país na face da terra. 

Como diz um rock and roll, dos anos de 1980, do RPM: “O caso Sudam, Maluf, Lalau, Barbalho, Sarney, e quem paga o jornal? É a propaganda, pois nesse país é o dinheiro que manda…”. Não há muito a comentar, não é? 

Por fim, façamos couro para outro rock and roll de 1980, da Legião Urbana.

Que país é esse? É a… Você sabe o resto. Cante.


Perdeu playbloy

Setembro 10, 2009

A falta de segurança demonstra o quanto o poder público se preocupa com a população

[Bruno Rebouças, é jornalista e editor do Coletivo Foque de Comunicação

 

Em 2008 uma onda de assaltos aos transportes coletivos tomou a cidade de Natal. Estudantes que perdiam o pouco que tinha. Trabalhadores que não sabiam como chegariam a suas casas. Se vivos e com a carteira no bolso sem dinheiro, ou se mortos, sem carteira, insistentemente vazia. Nesses ataques aos cidadãos, bandidos assaltaram ônibus atrás de ônibus, revelando a fragilidade do sistema de segurança de Natal. Nessas empreitadas, de bandidos versus cidadãos de bem, venceram os bandidos. Como geralmente vencem. Tiraram a vida de uma estudante de enfermagem, que estudava para socorrer outras vidas.

Nas eleições para a prefeitura da cidade do sol [2008], todos os candidatos falaram sobre segurança, prometendo resolver a situação, ou pelo menos não trata-lá com descaso. O fato é que chegamos a mais da metade de 2009, com oito meses da nova administração municipal e nada foi feito. A nível estadual chega-se a oito anos de insensibilidade.

Os bandidos voltaram. Quer dizer: sempre estão por aí, em qualquer lugar. Dos mais rico aos mais pobres. Não se engane. A onda de assalto aos transportes coletivos na cidade começa, novamente, a assombrar os necessitados desse transporte para se locomover. Nenhuma autoridade se manifesta e na grande imprensa só vemos notícias sobre o tema, quando algo drástico acontece. Como no episódio, do dia 27 de agosto, na qual, dois assaltantes foram surpreendidos por um soldado do Bope, que reagiu ao assalto. Nessa confusão, balearam Lucielma Bezerra, 26. Segundo a PM, o tiro foi disparado pela dupla e não pelo soldado do Bope. Um dos bandidos foi preso dia 28.

O grande fato, é que a violência em Natal cresce a cada dia. É impossível não ver, no mínimo, duas manchetes anunciando crimes ocorridos pela cidade. ‘Desconhecidos executam homem com 9 tiros de pistola 9mm’. Manchete da Tribuna do Norte. É evidente que foram desconhecidos que mataram o homem, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso, é que a grande imprensa não cobra, e muito menos fiscaliza um plano de metas para se conter a violência. Eles reportam os fatos drásticos, pois são esses fatos que vendem mais jornais.

O que se deve fazer é um plano de segurança, voltado para toda a população e não somente para uma minoria privilegiada apadrinhada pelo poder público e privado. Natal já foi a cidade mais segura do nordeste e estava entre as 10 mais do Brasil em segurança e tranquilidade. Nós como imprensa alternativa, não podemos deixar que a grande mídia e os jornalistas avestruzes publiquem que a violência está em apenas uma Zona da cidade. Numa tentativa pífia de criminalizar a zona norte.

A violência chega a todos os níveis da cidade. No Centro Administrativo, órgão do governo municipal e estadual, em plena luz do dia, bandidos arrombam carros com maior naturalidade da face da terra. Pelas ruas da cidade, motoristas são reféns dos ditos, flanelinhas. Uma espécie de dar ou desce da igreja universal. Ou colabora com a caixinha, ou o seu carrinho aparece com um prego no pneu, vidro quebrado e a pintura arranhada. E isso também é violência. O governo trata como violência apenas mortes e assaltos, que são as últimas consequencias. Até as luxuosas casas de veraneio estão sendo furtadas por quadrilhas armadas e encapuzadas.

Por fim, em outras cidades é natural ver alguém morto na rua ou sendo roubado na cara dura, em plena luz do dia, a 50 metros de um posto policial. Não podemos aceitar que essa realidade chegue aqui. Temos que nos chocar com os crimes que são publicados nas páginas da grande imprensa, independentemente dos interesses deles, que sabemos quais são. E temos que cobrar uma ação efetiva da polícia e dos poderes federal, estadual e municipal. A começar por eles mesmo que deveriam parar de nos assaltar.


Carta aberta para Renato Aragão, o Didi.

Setembro 9, 2009

Recebi essa carta por email e não poderia deixar de publica-la. Não sei quem é a autora. Como muita gente recebeu, e eu concordo plenamente com o conteúdo da carta escrita por Eliane Sinhasique, estou a publicar.

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Por: Eliane Sinhasique

  Querido Didi,

Há alguns meses você vem me escrevendo pedindo uma doação mensal para enfrentar alguns problemas que comprometem o presente e o futuro de muitas crianças brasileiras. Eu não respondi aos seus apelos (apesar de ter gostado do lápis e das etiquetas com meu Nome para colar nas correspondências)…

Achei que as cartas não deveriam sem endereçadas a mim. Agora, novamente, você me escreve preocupado por eu não ter atendido as suas solicitações. Diante de sua insistência, me senti na obrigação de parar tudo e te escrever uma resposta.

Não foi por ‘algum’ motivo que não fiz a doação em dinheiro solicitada por você. São vários os motivos que me levam a não participar de sua campanha altruísta (se eu quisesse poderia escrever umas dez páginas sobre esses motivos). Você diz, em sua última Carta, que enquanto eu a estivesse lendo, uma criança estaria perdendo a chance de se desenvolver e aprender pela falta de investimentos em sua formação.

Didi, não tente me fazer sentir culpada. Essa jogada publicitária eu conheço muito bem. Esse tipo de texto apelativo pode funcionar com muitas pessoas mas, comigo não. Eu não sou ministra da educação, não ordeno e nem priorizo as despesas das escolas e nem posso obrigar o filho do vizinho a freqüentar as salas de aula. A minha parte eu já venho fazendo desde os 11 anos quando comecei a trabalhar na roça para ajudar meus pais no sustento da minha família. Trabalhei muito e, te garanto, trabalho não Mata ninguém. Muito pelo contrário, faz bem! Estudei na escola da zona rural, fiz Supletivo, estudei à distância e muito antes de ser jornalista e publicitária eu já era uma micro empresária.

Didi, talvez você não tenha noção do quanto o Governo Federal tira do nosso suor para manter a saúde, a educação, a segurança e tudo o mais que o povo brasileiro precisa. Os impostos são muito altos! Sem falar dos Impostos embutidos em cada alimento, em cada produto ou serviço que preciso comprar para o sustento e sobrevivência da minha família.

Eu já pago pela educação duas vezes: pago pela educação na escola pública, através dos impostos, e na escola particular, mensalmente, porque a escola pública não atende com o ensino de qualidade que, acredito, meus dois filhos merecem. Não acho louvável recorrer à sociedade para resolver um problema que nem deveria existir pelo volume de dinheiro arrecadado em nome da educação e de tantos outros problemas sociais.

O que está acontecendo, meu caro Didi, é que os administradores, dessa dinheirama toda, não têm a educação como prioridade. Pois a educação tira a subserviência e esse fato, por si só não interessa aos políticos no poder. Por isso, o dinheiro está saindo pelo ralo, estão jogando fora, ou aplicando muito mal.Para você ter uma idéia, na minha cidade, cada alimentação de um presidiário custa para os cofres públicos R$ 3,82 (três reais e oitenta e dois centavos) enquanto que a merenda de uma criança na escola pública custa R$ 0,20 (vinte centavos)! O governo precisa rever suas prioridades, você não concorda? Você pode ajudar a mudar isso! Não acha?

Você diz em sua Carta que não dá para aceitar que um brasileiro se torne adulto sem compreender um texto simples ou conseguir fazer uma conta de matemática. Concordo com você. É por isso que sua Carta não deveria ser endereçada à minha pessoa. Deveria se endereçada ao Presidente da República. Ele é ‘o cara’. Ele tem a chave do Cofre e a vontade política para aplicar os recursos. Eu e mais milhares de pessoas só colocamos o dinheiro lá para que ele faça o que for necessário para melhorar a qualidade de vida das pessoas do país, sem nenhum tipo de distinção ou discriminação. Mas, infelizmente, não é o que acontece…

No último parágrafo da sua Carta, mais uma vez, você joga a responsabilidade para cima de mim dizendo que as crianças precisam da ‘minha’ doação, que a ‘minha’ doação faz toda a diferença… Lamento discordar de você Didi. Com o valor da doação mínima, de R$ 15,00, eu posso comprar 12 quilos de arroz para alimentar minha família por um mês ou posso comprar pão para o café da manhã por 10 dias…

Didi, você pode até me chamar de muquirana, não me importo, mas R$ 15,00 eu não vou doar.Minha doação mensal já é muito grande. Se você não sabe, eu faço doações mensais de 27,5% de tudo o que ganho. Isso significa que o governo leva mais de um terço de tudo que eu recebo e posso te garantir que essa grana, se ficasse comigo, seria muito melhor aplicada na qualidade de vida da minha família.

Você sabia que para pagar os impostos eu tenho que dizer não para quase tudo que meus filhos querem ou precisam? Meu filho de 12 anos quer praticar tênis e eu não posso pagar as aulas que são caras demais para nosso padrão de vida. Você acha isso justo? Acredito que não. Você é um homem de bom senso e saberá entender os meus motivos para não colaborar com sua campanha pela educação brasileira.

Outra coisa Didi, mande uma Carta para o Presidente pedindo para ele selecionar melhor os ministros e professores das escolas públicas. Só escolher quem, de fato, tem vocação para ser ministro e para o ensino. Melhorar os salários, desses profissionais, também funciona para que eles tomem gosto pela profissão e vistam, de fato, a camisa da educação. Peça para ele, também, fazer escolas de horário integral, escolas em que as crianças possam além de ler, escrever e fazer contas possa desenvolver dons artísticos, esportivos e habilidades profissionais. Dinheiro para isso tem sim! Diga para ele priorizar a educação e utilizar melhor os recursos.

Bem, você assina suas cartas com o pomposo título de Embaixador Especial do Unicef para Crianças Brasileiras e eu vou me despedindo assinando… Eliane Sinhasique – Mantenedora Principal dos Dois Filhos que Pari.

P.S.: Não me mande outra carta pedindo dinheiro. Se você mandar, serei obrigada a ser mal-educada: vou rasgá-la antes de abrir.

PS2* Aos otários que doaram para o criança esperança. Fiquem sabendo, as organizações Globo entregam todo o dinheiro arrecadado à UNICEF e recebem um recibo do valor para dedução do seu imposto de renda. Para vocês a Rede Globo anuncia: essa doação não poderá ser deduzida do seu imposto de renda, porque é ela quem o faz.

PS3* E O DINHEIRO DA CPMF QUE PAGAMOS DURANTE 11(ONZE) ANOS? MELHOROU ALGUMA COISA NA EDUCAÇÃO E NA SAÚDE DURANTE ESSES ANOS?

BRASILEIROS PATRIOTAS (e feitos de idiotas) DIVULGUEM ESSA REVOLTA…. Isto deveria chegar a Brasilia…


A Cultura do LIXO

Setembro 8, 2009

As notícias que a imprensa publica que não mudam sua vida

[Bruno Rebouças, jornalista e editor www.foque.com.br]

Você abre o jornal e vê uma reportagem de página inteira. Na foto um homem desconhecido. A manchete estampada é: ‘o homem que faz a cabeça dos políticos’. Você acha que é algo sério, e quando começa a ler as oito primeiras linhas vê que o homem da foto é o cabeleireiro oficial dos políticos do RN. Aí você se pergunta: e daí? Pode até pensar que o jornal não encontrou nada melhor para fazer, ou que faltou assunto para preencher o jornal. Mas a realidade é outra. Existe uma intenção. Ou você acha que Natal não tem problemas suficientes para serem relatados do que o cabeleireiro de Vilma, Garibaldi, Agripino e Rosalba? Claro que há. No mesmo dia, 7 de agosto, os servidores do INSS estavam em greve de fome há mais ou menos 20 dias e não ganharam nenhuma nota relatando a situação. A notícia, ‘relevante’ sobre o cabeleireiro, saiu no Jornal de Hoje, em Natal-RN.

Mais recente, em sites nacionais, notícias do tipo: ‘Madona passa mal em ensaio para show’; ou em jornais locais, como o Diário de Natal: ‘casal global termina namoro’, são tão sem nexo quanto à primeira. A grande imprensa e os defensores da mesma acreditam que essa ‘viadagem’ interessa aos leitores. Não interessa. Por mais que não pareça, os leitores querem informações diversas e ficar informados, por exemplo, da situação atual da saúde no seu estado e no país. Dos índices educacionais e da solução para resolvê-los. Não querem saber quem está transando com quem. Apesar de que isso interessa a muita gente.

O fato é que a grande imprensa não faz nada por acaso, ou por coincidência. Novelas ganharam força na ditadura militar para anestesiar a população. O futebol todas as quartas e domingos também. Nada contra novela e futebol. Novela não assisto mais, pois já assisti muito. E futebol, jogo e assisto; vejo compacto e tudo mais. Onde quero chegar? Como diz um samba de Leci Brandão, muito famoso, Zé do Caroço, “A televisão brasileira, destrói a gente com a sua novela”. Novelas que só entretem. Não educam, não tem viés político. Esse viés não é para falar de política. É para mostrar uma visão crítica das coisas, da realidade. Uma visão que faça os leitores, telespectadores pensarem e não querer que eles engula, já mastigado o que lhe é oferecido.

O globo.com estampa na sua capa que a Moss está lançando um perfume mais cheiroso. Sim, e daí? Eu não posso comprar esse perfume, e nem você. Mas isso cria uma mentalidade consumista e fútil nas pessoas, pois se a Ivete Sangalo usa, ‘eu quero usar’. É o que acontece com propagandas de cigarro e cerveja. O cara fuma e bebe, mas ao lado dele está uma mulher gostosona produzida em  sala de cirurgia. Por mais que você ache exagero, isso mexe com o imaginário dos adolescentes, principalmente, e dos adultos. Se o cara fuma e bebe, tem cavalos que custam milhões, visitam paisagens maravilhosas ao lado de mulheres perfeitas, eu também quero. E se eu não posso comprar aquilo, qual é a saída? Trabalhar? Sim, para quem tem uma estrutura familiar por trás. A segunda opção, para quem não tem estudo, comida, mas tem uma televisão em casa, é roubar. Então a criminalidade é gerada, não somente, pelo instinto malvado de trombadinhas. E sim, por uma condição social ou pela falta dela. Não estou defendendo bandido, apenas, digo: tudo que acontece no mundo tem a influência da imprensa.

A imprensa manipula até a hora do telejornal, dos jogos de futebol. E a publicidade é um cadaver que lhe sorri, como diz sabiamente o título do livro de Oliveiro Toscani.

A TEORIA DO ESPELHO

A mais velha e mais conhecida das teorias jornalistícas é a teoria do espelho. Basicamente ela diz que as notícias são o espelho da realidade. Logo que a estudamos na universidade, nos dizem que ela está ultrapassada. Porque será? Porque são os donos dos veículos que decidem o que é realidade, o que é mentira e o que é de interesse público. Não é de nosso interesse se Angélica quebrou o dedo ou se Luciano Luck faz o jantar na casa dele. Ou ainda que um brasileiro pega a Madona. Ou se Fábio Faria, deputado federal, que não consegue formular duas frases corretas, está comendo outra gostosa. Nós queremos saber, ou deveríamos querer, sobre o dinheiro público gasto em passagens aéreas que o deputado metido a galã deu para os globais embelezar seu camarote no carnatal.

A população deve saber como anda os acordos escusos para campanha de 2010. Onde inimigo de dois ou quatro anos atrás, estão se abraçando e dando beijos da morte uns nos outros. A população deve ter um pronunciamento da prefeita Micarla [no caso de Natal] e de todos os seus aliados sobre a segurança pública da capital potiguar. E não uma omissão descarada e não relatada pela grande imprensa, no maior modelo avestruz.

A CULPA TAMBÉM É SUA

A imprensa manipula tudo. Me lembro de uma história de Assis Chateaubriand, no livro Chatô – o rei do Brasil. Em sua rivalidade histórica com a família Matarazzo, durante a segunda guerra mundial, o Associados publicaram em seus jornais a morte de um membro da família Matarazzo, lá na Ítalia. A família ficou em luto total. A guerra acabou e o ente querido, tido como morto, bateu na porta da mansão dos Matarazzos em São Paulo. O patriarca que atendeu a porta, caiu para trás desmaiado.

Outra história de Chatô. Revoltado com o dono do jornal no qual trabalhava antes de virar um magnata da imprensa, Chateaubriand recebeu a tarefa de fazer uma reportagem sobre a semana santa. Antes de sair para as entrevistas chegou para o chefe de redação e perguntou: ‘É para falar bem ou mal de Jesus?’. Logo, não creia que tudo é coincidência. Quando se coloca uma notícia fútil nas páginas dos jornais existe um interesse por trás disso e não falta de assunto para abordar.

Porém, a culpa não é só da imprensa. Se os jornais expirram sangue é porque há um interesse dos leitores. Se a Tevê aborda mortes ao vivo, em imagens inéditas a fim de ganhar audiência, a culpa também é do telespectador. A mídia não é boba. Ela aproveita toda a brecha que lhe é dada. Se mulheres são símbolos sexuais, e seus corpos são explorados para vender revistas e dar audiência, a culpa é de todos, inclusive das mulheres que se submetem a isso.

Por fim, a culpa não é só de quem produz, mas de quem compra e de quem vende também.


‘Quem está na linha é Deus’

Setembro 1, 2009

Bruno Rebouças, jornalista.

Dizer que Raul Seixas é o maluco beleza é um clichê tachado e envelhecido. Uma mesmice que Raul odiava. Justificando que o sonho do careta é a realidade do maluco. Há vinte um anos morreu a criatividade, a inovação. Não somente um homem chamado Raul Santos Seixas, nascido em Salvador, aos 28 de junho de 1945. Diferentemente dos arranjos de duas notas da maioria dos músicos baianos, Raul inovou a música brasileira.

Formado em Psicologia, queria ser literário, mas não pôde. Criticou como poucos a sociedade brasileira e suas futilidades. Criticou a bossa nova, da qual nunca foi bem-vindo e muitos menos adepto. Morreu dentro de um apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar. E ela chegou, em 21 de agosto de 1989. Não votou para presidente, mas votar pra presidente é um quesito mínimo numa democracia.

Raul, com certeza, foi se encontrar com os moços dos discos voadores, que tanto deixaram ele na terra, enquanto, Raul, sabia das estrelas que haviam pelo espaço.

Raul se foi há 21 anos, e eu tenho dois a mais que isso. Não vi. Mas ouço. E ouço algo encantador. Nada de letras monossilábicas do forró, ou do axé baiano. Ouço letras sociais, críticas e reveladoras. Letras engraçadas, como as que compõem o título. Deus ligando para a terra e perguntando onde errou. A canção se chama DDI [Discagem direta interestelar]. Raul diz por Deus:

Alô, aqui é do céu. Quem tá na linha é Deus. Tô vendo tudo esquisito O que que há com vocês? [...] o diabo diz que vai baixar de uma vez por aí. Eu fiz vocês como eu, imagem e perfeição. E vocês anarquizando a minha reputação. Não é só novena, terço e oração [...].

O melhor disso tudo é que a razão daquele que é, dizem, louco é muito clara. Os que creem em Deus o interpretam como alguém bondoso com eles, e maléfico com os que não creem. Logo, não anarquizem Deus.

DDI foi censurada, mas em sites com letras de músicas é possível encontrar o trecho: convidado a sair. Parece que Raul fez a canção para os escândalos da política brasileira atual. Deus declara: Eu não compreendo tanta reclamação, se dei igual pra todo mundo, tem gente aí metendo a mão…”. O trecho a seguir aborda a destruição da terra e do espaço. Tão acabando com a Terra… que era somente sua. Agora já tão querendo se mudar pra lua [...].

Para Raul a mesmice é o erro dos normais. Frases simples, ditas aos acordes da guitarra do astro, amigo de composição do outrora excelente Paulo Coelho, que virou um autor meia boca e vende milhões de livros para leitores meia boca. Desculpe, mas é o que eu acho. Paulo Coelho se considera, no mais puro equívoco, o maior intelectual da nossa história.

Voltando a Raul. O astro era contra a mesmice, e avisa claramente nessa frase, marcante:

Eu não sou louco, é o mundo que não entende minha lucidez

Personalidade forte, Seixas foi preso e torturado em 1973, já na parceria com Coelho. Exilou-se nos Estados Unidos, país da qual era extremamente fã. Nesse mesmo ano compôs Ouro de Tolo, canção autobiográfica e que criticava a ditadura militar e o seu milagre econômico. O ouro de tolo é considerado o maior sucesso de Raul Seixas. Nessa canção a futilidade da vida é posta a prova, novamente, e Raul dá um tapa na cara da sociedade carioca e brasileira quando diz:

é você olhar no espelho, se sentir um grandessíssimo idiota. Saber que é humano ridículo, limitado, que só usa dez por cento, de sua cabeça animal… E você ainda acredita, que é um doutor, padre ou policial; que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social….

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Não deixa de ser.

Compôs tantas músicas que se fosse citá-las não caberia nessa página. Raul compôs, estima-se, mais de 260 canções em inglês e portugues, divididas em 21 álbuns. Músicas de grande sucesso, que para os fãs não precisam ser nomeadas. Admiro muito a letra de S.O.S, que fala da falta de pensamento e visão de uma sociedade que não tem mais tempo para pensar.

Hoje é domingo, missa e praia, céu de anil.

Não existe mais clichê que domingo, segundo Raulzito.

Eu sou egoísta, além de ser divertida, é irônica e, acima de tudo, verdadeira. “Eu sou estrela no abismo do espaço. O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço. Onde eu tô não há bicho-papão. Eu vou sempre avante no nada infinito, flamejando meu rock, o meu grito. Minha espada é a guitarra na mão.

Outra música de Raul censurada pela ditadura militar foi descoberta pelo amigo e produtor Marco Mazzol, que gravou a original com Raul. A música foi regravada com a voz de Raul e novos arranjos musicais, graças a tecnologia [ver aqui]. Mazzola declarou que Raul era um careta nato. Falava inglês fluentemente. Mas o astro tinha a necessidade de ser diferente, de mudar. Necessidade de criar a tão sonhada Sociedade Alternativa. Mudar a mesmice da vida, da sociedade, dos pensamentos. Necessidade de tentar achar resposta para tudo. Foi sobre isso que falou em sua carreira. Ele pensava numa mudança de postura.

Em Eu também vou reclamar, ele aborda tudo já dito nesse texto, principalmente a ociosidade e reclamação da classe média, dos filhos da burguesia. Retrata ainda a falta de opção nos jornais, na televisão e suas ninharias.

[...] Tô trancado aqui no quarto, de pijama, porque tem visita estranha na sala. Aí eu pego e passo a vista no jornal… Ligo o rádio e ouço um chato que me grita nos ouvidos: Pare o mundo, que eu quero descer. Falam em nuvens passageiras, mandam ver qualquer besteira e eu não tenho nada prá escolher… Ao meu lado um dicionário, cheio de palavras que eu sei que nunca vou usar.

Considero Raul o melhor e maior músico e compositor desse país. Pela originalidade, pela crítica, coragem. Pela lucidez exagerada que nós, normais, não conseguimos enxergar. Raul compôs músicas nas décadas de 1960, 1970 e 1980, mas todas elas serviriam muito bem para o nosso momento atual. Tanto na política, nos escândalos, na falta de identidade de uma sociedade e sua futilidade marcante. Quanto na falta de inteligência e sensibilidade de homens e mulheres que regem esse país. Nesse momento, mais que em qualquer outro, devemos dizer: parem o mundo que eu quero descer.

Raul deixou o seu legado, que não pode ser esquecido. Nosso dever, como fãs, jornalistas, historiadores, é manter a memória desse gênio viva. Raul morreu, mas fica seus pensamentos e composições. Como ele mesmo disse:

Ninguém morre, as pessoas despertam do sonho da vida”.