Brasil: Um país sem vergonha

junho 21, 2011

Por Bruno Rebouças, jornalista

 

A pergunta mais proeminente produzida no Brasil foi feita por Renato Russo, na música que tudo mundo conhece: ‘Que País é esse?’ A resposta você já sabe, né?

A direita brasileira utiliza o exemplo da Ditadura Argentina para diminuir os efeitos da Ditadura tupiniquim, chamando-a de ‘ditabranda’. Os adeptos dos milicos de 1º de abril de 1964 criaram um ‘ditatrômetro’ para medir os níveis das ditaduras pelo mundo a fora. Conhecendo os fatos é possível, realmente, afirmar que na Argentina houve mais mortes e mais sangue. Por lá, o presidente-general José Rafael Videla Redondo e outros militares prendiam, também, mulheres grávidas e, após o nascimento dos bebês, matavam as mães e entregavam as crianças para adoção, além de outros crimes e sacanagens praticados de 1976 a 1983. Esse período ficou conhecido como ‘guerra suja’.

Mas esse tempo passou e, dois anos após o fim da ditadura de Videla, este foi ao banco dos réus e foi condenado a prisão perpétua. Porém, foi solto pelo presidente Menem, em 1990. Em 1998, já com Nestor Kirchner na presidência, a Suprema Corte aboliu a Lei do Perdão (a Lei de Anistia aqui no Brasil) e levou para o banco dos réus a maioria dos militares-torturadores. Nestor fez isso sem se levar por ameaças de ministros militares, como fez Nelson Jobim no Brasil. Em 2010, tendo Cristina Kirchner presidente, esposa de Nestor, os generais foram condenados novamente à prisão perpétua, entre eles estava José Rafael Videla.

Atualmente, estão sendo julgados por crime contra humanidade, 526 repressores, sendo que 385 estão detidos, de acordo com o mais recente levantamento do Centro de Estudos Legais e Sociais da Argentina. (CELS).

Por aqui nenhuma vírgula foi divulgada dos arquivos dos anos de chumbo. Além disso, O Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou a permanência da Lei de Anistia, de 1979, matando, pela 2ª vez, os mortos da ditadura militar de 1964. Muitos defendem e ainda chegam à errônea visão que a Anistia de 1979 foi ampla, geral e irrestrita. Porém, isso só aconteceria em condições iguais de negociações e, em 1979, não havia possibilidades semelhantes entre sociedade civil e militares. Assim, a Anistia ‘ampla, geral e irrestrita’ foi aceita por todos pelas circunstâncias, mas vale lembrar que quem a preparou e se eximiu de qualquer culpa, foram os milicos.

Em 2009, quando o STF ratificou a Lei de Anistia, Dilma Roussef, ainda ministra da Casa Civil, se posicionou contra a posição dos ministros do Judiciário. Agora, a presidente que foi torturada, prova que ‘o critério da verdade é a prática’ (Marx), e determinou o arquivamento do processo impetrado pela OAB, que pedia a revisão da Lei de Anistia, assim como a Comissão de Direitos Humanos da ONU, em carta divulgada no começo do mês de junho deste ano.

Dilma, que todos acreditam ser uma boa gestora, também deixou de lado a votação referente aos documentos públicos, para aumentar o tempo de sigilo. Dilma quer a mudança de 30 para 50 anos. Dois defensores ferrenhos das oligarquias brasileiras, Collor e Sarney, defendem o sigilo eterno. Lula, o grande irmão, já declarou ser conta à eternidade, inclusive foi ele quem enviou o projeto ao Congresso Nacional diminuindo o sigilo de acesso aos documentos públicos, que hoje é de 30, para 25 anos. As sanguessugas do PMDB também querem a eternidade, talvez para defender seus ‘companheiros’ que namoraram a ditadura militar à sua época, como Sarney o fez.

O escritor russo Alexander Solzhenitsyn, em ‘Arquipélago Gulag’, cita o provérbio que diz: ‘aquele que recorda o passado perde um olho’. Porém, o provérbio tem um completo que declara: ‘aquele que o esquece perde os dois’. Há a tentativa política de apagar o passado. Tal atitude é digna do Ministério da Verdade, no livro ‘1984’ de George Orwell, onde eram jogadas no buraco da memória, como se nunca tivessem existido, todas as informações que prejudicassem o governo do Grande Irmão. É isso que me parece que os Deputados Federais e Senadores, que Lula já chamou de 300 picaretas, em conjunto com a presidente Dilma, querem fazer com a sociedade: apagar a nossa história e, principalmente, não contá-la.  

É tradicionalmente da política brasileira, esquecer o passado de quinze em quinze anos, como afirmou Ivan Lessa. O sigilo é a palavra dos olhos da classe política brasileira. Para completar, os Deputados Federais aprovaram a Medida Provisória 527, que legaliza o sigilo das informações orçamentárias e os gastos com as obras da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016, que nós vamos pagar. Não eles. Fora isso, os organizadores da Copa conseguiram aquilo que eu tinha certeza que aconteceria: o regime especial de contratação. Agora, vale tudo. Desde contratar empreiteiras financiadoras de campanhas, sem licitação, claro. Até pagar a si mesmo, com nossa grana, para executar as obras necessárias para Copa do Mundo. Com um dia de aprovação da MP527, já existe suspeita de superfaturação em Minas Gerais. Vale lembrar que, da bancada do Rio Grande do Norte na Câmara Federal, só Fábio Faria e Paulo Wagner votaram a favor da MP… Somos ou não um país descarado?


Um filme como inspiração

junho 13, 2011

Por Bruno Rebouças – publicado em 07/06/2011 na edição 645 do Observatório da Imprensa 

 

O pensamento ético em minha vida exerce muito influência. Na verdade considero a moral mais importante que a ética. Pois, se a moral é minha e a ética é dos outros, e eu não me importo com que os outros pensam, posso atropelar minha ética e seguir somente com minha moral, coisa que muita gente faz, mas não assume. Em uma das disciplinas da pós-graduação em Assessoria de Comunicação, da Universidade Potiguar (UnP), fui perguntado se podem existir duas éticas. Uma no trabalho e outra em casa. Respondi que sim com o mesmo argumento anterior. Se a ética é a ciência que estuda os meus comportamentos morais e minha moral são os meus costumes. Acredito que somente eu posso me julgar antiético ou não. Fazendo valer a máxima de que: “Quem é você para me julgar?”

Uma das profissões que sofrem mais conflitos éticos é a de jornalista. Esse profissional fica à mercê do veículo em que trabalha para ora falar bem de uma situação, administração pública ou política, ora falar mal das instituições ou pessoas físicas que há pouco tempo abordou de maneira negativa. Nunca passei por isso e espero não passar, pois acredito que “imprensa é oposição e o resto é armazém de secos e molhados”, como disse Millôr Fernandes.

Um bom exemplo de ética no jornalismo, para profissionais e estudantes, é o personagem Lowell Bergman, vivido por Al Pacino em O Informante. Bergman é produtor do programa 60 minutos, da CBS. Ao final do filme, ele enfrentará a alta cúpula da CBS que, com medo de retaliações das empresas de cigarro, resolve editar a entrevista de Jeffrey Wigand, vivido por Russel Crowe, ex-biologista da empresa tabagista Brown & Williamson. A entrevista bombástica, na íntegra denunciava a empresa onde Wigand trabalhava, acusando-a de saber dos efeitos maléficos da adição de um novo produto à composição do cigarro. Porém, com a edição do programa, feita com o auxílio dos advogados da CBS, todas as partes da denúncia foram extraídas retirando todo o contexto da entrevista do personagem de Russel Crowe.

OUTRO CONFLITO ÉTICO

 

Fascinante e bem escrito, O informante é muito mais que um ótimo filme que aborda, entre outras coisas, o jornalismo e a liberdade de imprensa. É possível encontrar, desde as primeiras cenas, conflitos éticos tanto no âmbito profissional quanto pessoal. Após ser demitido, Jeffrey Wigand assina um contrato de confidencialidade e, caso cumprisse o contrato, a empresa tabagista pagaria seus direitos trabalhistas e o plano de saúde de sua família, principalmente de suas filhas.

Entrelaçado a isso, o personagem de Crowe vive um dilema. Ele sabe que a nova substância é maléfica à saúde dos usuários e serve para viciá-los cada vez mais. Além de Jeffrey saber desses malefícios, a empresa Brown & Williamson também sabia, o que para a justiça revelaria a intenção de prejudicar o usuário. Entre pensamentos de denunciar sua ex-empresa, Jeffrey enfrenta um confronto ético. Revelar uma informação, após ter assinado um contrato afirmando que manteria segredo, assim protegendo sua família, ou ir contra sua ética profissional e familiar e revelar um assunto de interesse público?

É nesse contexto que o personagem Lowell Bergman, Al Pacino, entra. Ele tenta convencer Jeffrey a revelar o segredo através de uma entrevista ao programa 60 minutos, da CBS. Sem cortes, sem edição. O acordo é feito. Jeffrey quebra sua ética profissional, como ex-funcionário da empresa tabagista, e quebra sua ética familiar como pai, que é proteger, entre outras coisas, sua família.

É curioso notar que Jeffrey só decide denunciar sua ex-empresa quando é demitido dela. Entrando em outro conflito ético, no caso de sua formação acadêmica, a Biologia, que é a mesma ética da área macro da Saúde: Preservar a vida. Sendo que foi o próprio Jeffrey quem ajudou a desenvolver a nova substância maléfica aos usuários. Esse conflito, mais uma vez demonstra que a moral individual permitiu ultrapassar a ética profissional, já que ninguém sabia da inclusão da nova substância nos cigarros.

UM MEIO DE TRANSFORMAÇÃO

 

Após aceitar a conceder a entrevista ao programa 60 minutos, o filme entra em outro conflito ético dentro do jornalismo e da liberdade de imprensa.Quando a entrevista está pronta para ser veiculada, Al Pacino e sua equipe descobrem a presença de um dos advogados da matriz da CBS que está avaliando o conteúdo. Depois de tal avaliação, é decidido editar a entrevista, a fim de contar os trechos denunciantes. Nessa hora entra um Al Pacino brilhante em seu papel de jornalista experiente e calejado, sem o estereótipo do bom moço, mas com a essência dos grandes jornalistas, que é a verdade.

O ponto alto do filme está nas discussões entre o jornalista e os diretores da televisão. Enquanto os diretores tentam minimizar os cortes, alegando a situação econômica ou as retaliações que a CBS pode sofrer da bilionária indústria tabagista, o jornalista explica o interesse público, a relevância da verdade para a sociedade norte-americana. Estão em risco os nomes de dois jornalistas conceituados, os personagens de Al Pacino e de Christopher Plummer, apresentador do programa60 minutos e um dos mais respeitados na profissão nos Estados Unidos, além do bem maior do jornalismo, que é a verdade dos fatos.

Ao final, a entrevista vai ao ar com os cortes propostos pelos advogados e a alta direção da emissora, o que faz o personagem Lowell Bergman cair em desilusão até se demitir, em represália à edição da entrevista que foi contra todos os preceitos éticos e morais do jornalismo e de sua liberdade. Ao final do filme, com ajuda de outros veículos de comunicação, pela primeira vez na história uma empresa tabagista, no caso a Brown & Williamson, é condenada pela inclusão da substância maléfica aos usuários do cigarro com a ajuda da imprensa, assim como já tinha acontecido no caso Watergate – abordado no filme Todos os homens do presidente – e nos abusos cometidos contra os norte-americanos pelo senador Joseph McCarth – retratados no filme Boa noite e Boa Sorte.

Esses fatos ressaltam a necessidade da verdade ser inerente à profissão de jornalista. A maior matéria-prima do jornalismo não é a notícia, mas sim, a verdade. Sem ela, não posso exercer a função de jornalista, como afirmou Gay Talese. Talvez seja utopia, romantismo ou qualquer outra nomenclatura que queiram dar, mas eu acredito piamente que o jornalismo é um meio de transformação, e não somente a prática de redigir informação, como muitos acreditam.


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