Não esquecemos Gutenberg

 por Bruno Rebouças

 

Na quarta-feira (5/10), o mundo foi tomado por uma notícia que facilmente se alastrou, a morte de Steve Jobs. Aos 56 anos de idade, o fundador da Apple deixou um legado sensacional, que transformou a relação das pessoas através de um aparelho que leva a marca de uma maçã mordida e uma letra “i” a frente do nome dos aparelhos. A partir de 2007, a invenção do iPhone revolucionou o mundo digital e a visão que todos tinham de um aparelho de telefone. Naquele instante, através da ideia do genial Steve Jobs, uma contradição perceptível acompanha um aparelho tão famoso e reverenciado.

Com a ascensão das redes sociais e a invenção dos chamados smartphones, principalmente do iPhone da Apple, o mundo se aproximou, as redes unificaram o que antes era segmentado e a velocidade de todas as informações passou a ser não mais no minuto a minuto, e sim, no segundo a segundo. Você pode se perguntar em que momento vem a contradição citada acima. E eu respondo que agora. Ao mesmo tempo em que a invenção fantástica de Jobs veio à tona e transformou a relação dos usuários com seus aparelhos de poucos centímetros, unificando as partes do mundo, tendo em vista o uso das redes sociais, o mesmo aparelho afastou quem faz das redes sociais um sucesso: as pessoas.

É comum perceber que as pessoas se comunicam muito mais pelo Twitter e Facebook, acessado pelos aplicativos da Apple, que pessoalmente ou no mínimo ouvindo voz do outro, através de uma ligação. Fica evidenciado que a morte de Jobs deixa uma lacuna no mundo das invenções digitais que tantos seguidores aplacaram. Pelo Twitter e Facebook, nas reportagens da TV, em artigos na internet, fica evidenciado que houve uma comoção com a morte do fundador da Apple. Porém, o crédito do luto vai para as invenções (ou a obra?) de Steve Jobs. Houve jornalista nos Estados Unidos que comparou a morte de Jobs com a de John Lennon, em relação às homenagens que aquele recebeu.

 

A maior das invenções da história

 

A genialidade de Steve Jobs não pode ser questionada, principalmente com o boato de que, antes de morrer, ele deixou inovações para os produtos da Apple para os próximos quatro anos. Para comprovar esse boato só esperando os próximos quatro anos para sabermos. Entretanto, após saber da morte de Jobs e ver, ler e ouvir diversos comentários nas diferentes mídias, pensei em alguém que não foi citado em nenhuma reportagem e nada tem a ver com a morte do fundador da Apple: Johannes Gutenberg.

O fanatismo dos fãs da Apple e de seus aparelhos me fez pensar se nós estaríamos em luto caso Gutenbergmorresse no mesmo dia que Jobs faleceu. E chego à conclusão que sim. Foi de Guttenberg a maior invenção da história da humanidade. Enquanto a primeira invenção de Steve Jobs foi um computador Mac, um computador pessoal chamado de desktop,Gutenbergpublicou a Bíblia de 42 linhas e fundou, talvez sem saber, a imprensa, logo, o jornalismo. Gutenbergdisseminou, com o desenvolvimento dos tipos móveis e da prensa, o conhecimento através dos livros. Sem a invenção de Gutenberg, a Igreja católica ainda seria detentora da produção e disseminação de todo conhecimento histórico, político, social e religioso. Tudo bem, que Jobs colocou na palma da nossa mão um aparelho que é telefone, som, agenda, entretenimento, acessa a internet, tuíta (que já virou verbo), posta no Facebook etc. Mas foi Gutenbergque fundou a profissão que registrou a história como testemunha ocular e que, sem ela, as revoluções que destituíram as monarquias demorariam muito mais a acontecer, ou não aconteceriam, justamente por não existirem jornais.

Estou convencido que se Gutenberg não tivesse inventado os tipos móveis, a prensa e tudo mais, Jobs o teria feito, assim como Gutenberg teria fundado a Apple e o iPhone, iPod, iPad etc. A invenção maravilhosa de Gutenbergfoi fundamental para Jobs, mesmo que 500 anos depois. A morte de Steve Jobs é triste por queele foi um gênio e lançou produtos que mudarama vida das pessoas, mas não podemos esquecer da maior das invenções da história da humanidade. Se Gutenberg não inventa os tipos móveis, talvez jamais Jobs teria invetado o computador desk e os “i”sda vida moderna.

 

“Gutenberg é o herói de uma legião”

 

Tal qual o mestre Alberto Dines afirmou na revista ESPM (edição nº 5, set/out 2010) acredito que faltou a Gutenbergcriar a sua “galáxia” e acrescentar um “g” antes dos nomes de suas invenções, como Jobs construiu a sua nuvem. A imortalidade de Jobs vai durar 500 anos como a de Gutenbergainda resiste. Talvez o fundador da Apple seja mais reverenciado, quando um futuro fundador de algo tão revolucionários morra daqui a anos. O fato é que duas invenções mudaram o rumo da comunicação. Ambas tão inacreditáveis e revolucionárias, levando em conta os séculos vigentes. Por fim, transcrevo um trecho da “Carta a um jovem jornalista”, de Alberto Dines, na revista ESPM, citada acima:

“Supõe-se que Steve Jobs deteste Johannes Gutenberg, tantas são as maquinetas que inventa com o `i´antes do nome (iPhone, iPad etc.), todas destinadas a aposentar os feitos do seu rival alemão. Gutenbergbem que poderia colocar um `g´antes das suas modestas criações: a primeira foi o tipo móvel (uma letrinha de metal que poderia ser reutilizada infinitamente); pela lógica, a segunda teria sido uma prensa especial onde imprimiria as páginas separadamente, a terceira foi um tinta levemente oleosa que não escorreria no papel.

Com este tripé começava a Galáxia Gutenberg, que revolucionou a produção e multiplicação do conhecimento para desgosto da Apple, que precisou esperar cinco séculos antes de se aventurar no arriscado negócio de tornar os homens mais informados. Gutenbergé o herói de uma legião de pensadores, autores, visionários, tradutores, artistas, gravadores, papeleiros, impressores e livreiros, todos beneficiários diretos das suas inovações.

Quem soube registrar, organizar, atualizar, hierarquizar e periodizar a formidável massa de informações produzidas desde então foi uma categoria – ou bando – de doidos: os jornalistas.”

Sendo assim, descanse em paz Steve Jobs. Se você encontrar Gutenbergno céu, mande um muito obrigado meu a ele.

 

***

 

[Bruno Rebouças é jornalista, Natal, RN]

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