Bruno Rebouças, jornalista.
Dizer que Raul Seixas é o maluco beleza é um clichê tachado e envelhecido. Uma mesmice que Raul odiava. Justificando que o sonho do careta é a realidade do maluco. Há vinte um anos morreu a criatividade, a inovação. Não somente um homem chamado Raul Santos Seixas, nascido em Salvador, aos 28 de junho de 1945. Diferentemente dos arranjos de duas notas da maioria dos músicos baianos, Raul inovou a música brasileira.
Formado em Psicologia, queria ser literário, mas não pôde. Criticou como poucos a sociedade brasileira e suas futilidades. Criticou a bossa nova, da qual nunca foi bem-vindo e muitos menos adepto. Morreu dentro de um apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar. E ela chegou, em 21 de agosto de 1989. Não votou para presidente, mas votar pra presidente é um quesito mínimo numa democracia.
Raul, com certeza, foi se encontrar com os moços dos discos voadores, que tanto deixaram ele na terra, enquanto, Raul, sabia das estrelas que haviam pelo espaço.
Raul se foi há 21 anos, e eu tenho dois a mais que isso. Não vi. Mas ouço. E ouço algo encantador. Nada de letras monossilábicas do forró, ou do axé baiano. Ouço letras sociais, críticas e reveladoras. Letras engraçadas, como as que compõem o título. Deus ligando para a terra e perguntando onde errou. A canção se chama DDI [Discagem direta interestelar]. Raul diz por Deus:
“Alô, aqui é do céu. Quem tá na linha é Deus. Tô vendo tudo esquisito O que que há com vocês? [...] o diabo diz que vai baixar de uma vez por aí. Eu fiz vocês como eu, imagem e perfeição. E vocês anarquizando a minha reputação. Não é só novena, terço e oração [...]”.
O melhor disso tudo é que a razão daquele que é, dizem, louco é muito clara. Os que creem em Deus o interpretam como alguém bondoso com eles, e maléfico com os que não creem. Logo, não anarquizem Deus.
DDI foi censurada, mas em sites com letras de músicas é possível encontrar o trecho: convidado a sair. Parece que Raul fez a canção para os escândalos da política brasileira atual. Deus declara: “Eu não compreendo tanta reclamação, se dei igual pra todo mundo, tem gente aí metendo a mão…”. O trecho a seguir aborda a destruição da terra e do espaço. “Tão acabando com a Terra… que era somente sua. Agora já tão querendo se mudar pra lua [...]”.
Para Raul a mesmice é o erro dos normais. Frases simples, ditas aos acordes da guitarra do astro, amigo de composição do outrora excelente Paulo Coelho, que virou um autor meia boca e vende milhões de livros para leitores meia boca. Desculpe, mas é o que eu acho. Paulo Coelho se considera, no mais puro equívoco, o maior intelectual da nossa história.
Voltando a Raul. O astro era contra a mesmice, e avisa claramente nessa frase, marcante:
“Eu não sou louco, é o mundo que não entende minha lucidez”
Personalidade forte, Seixas foi preso e torturado em 1973, já na parceria com Coelho. Exilou-se nos Estados Unidos, país da qual era extremamente fã. Nesse mesmo ano compôs Ouro de Tolo, canção autobiográfica e que criticava a ditadura militar e o seu milagre econômico. O ouro de tolo é considerado o maior sucesso de Raul Seixas. Nessa canção a futilidade da vida é posta a prova, novamente, e Raul dá um tapa na cara da sociedade carioca e brasileira quando diz:
“é você olhar no espelho, se sentir um grandessíssimo idiota. Saber que é humano ridículo, limitado, que só usa dez por cento, de sua cabeça animal… E você ainda acredita, que é um doutor, padre ou policial; que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social…”.

Não deixa de ser.
Compôs tantas músicas que se fosse citá-las não caberia nessa página. Raul compôs, estima-se, mais de 260 canções em inglês e portugues, divididas em 21 álbuns. Músicas de grande sucesso, que para os fãs não precisam ser nomeadas. Admiro muito a letra de S.O.S, que fala da falta de pensamento e visão de uma sociedade que não tem mais tempo para pensar.
“Hoje é domingo, missa e praia, céu de anil”.
Não existe mais clichê que domingo, segundo Raulzito.
“Eu sou egoísta, além de ser divertida, é irônica e, acima de tudo, verdadeira. “Eu sou estrela no abismo do espaço. O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço. Onde eu tô não há bicho-papão. Eu vou sempre avante no nada infinito, flamejando meu rock, o meu grito. Minha espada é a guitarra na mão”.
Outra música de Raul censurada pela ditadura militar foi descoberta pelo amigo e produtor Marco Mazzol, que gravou a original com Raul. A música foi regravada com a voz de Raul e novos arranjos musicais, graças a tecnologia [ver aqui]. Mazzola declarou que Raul era um careta nato. Falava inglês fluentemente. Mas o astro tinha a necessidade de ser diferente, de mudar. Necessidade de criar a tão sonhada Sociedade Alternativa. Mudar a mesmice da vida, da sociedade, dos pensamentos. Necessidade de tentar achar resposta para tudo. Foi sobre isso que falou em sua carreira. Ele pensava numa mudança de postura.
Em Eu também vou reclamar, ele aborda tudo já dito nesse texto, principalmente a ociosidade e reclamação da classe média, dos filhos da burguesia. Retrata ainda a falta de opção nos jornais, na televisão e suas ninharias.
“[...] Tô trancado aqui no quarto, de pijama, porque tem visita estranha na sala. Aí eu pego e passo a vista no jornal… Ligo o rádio e ouço um chato que me grita nos ouvidos: Pare o mundo, que eu quero descer. Falam em nuvens passageiras, mandam ver qualquer besteira e eu não tenho nada prá escolher… Ao meu lado um dicionário, cheio de palavras que eu sei que nunca vou usar”.
Considero Raul o melhor e maior músico e compositor desse país. Pela originalidade, pela crítica, coragem. Pela lucidez exagerada que nós, normais, não conseguimos enxergar. Raul compôs músicas nas décadas de 1960, 1970 e 1980, mas todas elas serviriam muito bem para o nosso momento atual. Tanto na política, nos escândalos, na falta de identidade de uma sociedade e sua futilidade marcante. Quanto na falta de inteligência e sensibilidade de homens e mulheres que regem esse país. Nesse momento, mais que em qualquer outro, devemos dizer: “parem o mundo que eu quero descer”.
Raul deixou o seu legado, que não pode ser esquecido. Nosso dever, como fãs, jornalistas, historiadores, é manter a memória desse gênio viva. Raul morreu, mas fica seus pensamentos e composições. Como ele mesmo disse:
“Ninguém morre, as pessoas despertam do sonho da vida”.