Tropa de Elite 2: A verdade como ela é

janeiro 21, 2011

 

Publicado no Jornal de Hoje em 07/11/10

Bruno Rebouças, jornalista

 

 

Quando entrei no cinema para assistir o segundo filme Tropa de Elite, já esperava a evolução dos palavrões e do ‘pede pra sair’ tão badalado no primeiro filme. Muito mais que um filme sobre violência ou tráfico de drogas, na cidade do Rio de Janeiro, a película de José Padilha traz a tona algumas verdades obscurecidas por aquilo que o agora, Coronel Nascimento, chama de ‘sistema’.

Antes do filme começar, uma frase diz que apesar das fortes coincidências com a realidade, o filme é de ficção. Para o público mais atento, Tropa de Elite 2 trás mais que puras coincidências com a realidade. O filme carrega consigo o DNA da verdade. Ou, pelo menos como ela deveria ser contada. O filme de Padilha, estrelado por Vágner Moura, mais maduro e conduzindo o personagem central a uma grande atuação cinematográfica, faz relação direta entre os políticos de tal cidade e, as milícias da PM que cobram impostos, no filme chamado de a ‘CPMF das favelas’. Tal imposto serve para proteger os moradores da própria polícia.

Com ares de ficção, para incrementar a história, Tropa de Elite desenrola fatos recentemente ocorridos. Como a morte de um líder do tráfico, no presídio de segurança máxima, Bangu I, em 2006; Ou, a morte de uma jornalista que investigava as milícias e o seu envolvimento no roubo de armas. Em tal fato, há a forte coincidência com a morte do jornalista Tim Lopes, em 2002.

O filme demonstra como funciona a relação PM-Traficantes, Políticos-PM. Padilha retrata aquilo que muitos órgãos independentes denunciam há anos. O fato da polícia ser a coordenadora e receber mesada dos traficantes para não subir o morro, assim como a omissão do poder público que tem como interesse único, os votos dos favelados.

Esse é o ponto chave do filme. A relação do governador do Estado e alguns deputados estaduais, no filme, com os policiais corruptos que faturam alto cobrando a CPMF das favelas e luxando em iates na Baía de Guanabara. Em um dos trechos mais verídicos do filme, o Coronel Nascimento diz que: “o voto é a mercadoria mais valiosa”.

Saindo das telas do cinema e vindo à realidade, o voto virou um bem de troca, na qual o candidato com maior poder aquisitivo se elege, comprando em liquidação o voto de milhões de miseráveis e aproveitadores que só pensam, respectivamente, em vencer, em se alimentar e, em lucrar. Como bem declarou o vereador Ney Lopes Jr., em entrevista ao Jornal de Hoje, “a disputa eleitoral se transformou em um ‘mercado persa’”, em alusão direta a força do poder econômico, agindo na eleição de candidatos avulsos sem um mínimo de perfil para exercer um mandato público.

Um ponto suave que o filme aborda e, que passa despercebido pelo público, é a relação submissa que alguns órgãos da imprensa têm com os governos e seus agentes. Após o desaparecimento da jornalista que investigava as milícias, o personagem Diogo Fraga, deputado, pede a publicação do assassinato da jornalista ao editor do jornal, onde ela trabalhava. Com um seco: “não temos prova” e logo em seguida: “o governo é nosso parceiro”, o editor não publica o fato evidente, finalizando que ela apesar de ter morrido trabalhando para o jornal, “cumpria função dela”.

Muito mais que um filme que aborda a força de um batalhão de elite, o poder do tráfico de drogas e sua organização, além de seus tentáculos. Bem como, a relação corrupta e submissa que o Estado exerce sobre a criminalidade, Tropa de Elite 2 é um filme moral sobre a realidade brasileira, onde o sistema corrompe, engana, manipula e assassina inocentes se refazendo a cada dia, visando apenas o interesse daqueles que o dirige. Como finaliza o Coronel Nascimento: “o sistema é f…”. E deve ser pensado e analisado por quem assiste ou assistiu a película.

Tropa de Elite 2 é muito mais que o ‘pede pra sair’, o‘senhor é um fanfarrão’ ou a incorruptibilidade de um batalhão (único fato que me incomoda no filme, pois não é 100% verdade). Tropa de Elite 2 é a história verdadeira do crime organizado e o sistema político brasileiro, que de tão parecidos, viraram um só.


No Vale das Sombras (Paul Haggis)

julho 10, 2008

Reginaldo Filho*

 

Não, não é guerra. Guerra é guerra propriamente dita, quando os dois oponentes dispõem de um mesmo poder de fogo para poder fazer seus estragos, e não é isso que acontece entre EUA e Iraque. E por falar em represália ao Iraque, o cinema ao longo dos últimos 7 anos tem tratado o assunto as vezes brutal e as vezes delicadamente. Visto também que a guerra contra o terror fez com que os assuntos em terras orientais fossem ficar mais interessantes para os cidadãos do mundo ocidental e o que realmente ocorre lá. Falou-se muito sobre tropas americanas involuntárias indo defender o patriotismo ‘dumb’ ianque e na telona também se falou. Uma das mais felizes produções para o cinema no ano de 2007 se chama “No Vale das Sombras” (In the Valley of Elah) de Paul Haggis.

 

O filme, que é baseado em uma história real, é centrado em Hank Deerfield (Tommy Lee Jones), um oficial de carreira do exército americano que recebe a informação que seu filho Mike (Jonathan Tucker) recém-chegado do Iraque não retornou a base depois de ter uma licença. Preocupado com este comportamento irresponsável de seu filho e conseqüentemente atípico, Hank vai até o estado onde se encontra a base para poder procurar o seu filho desaparecido. Algum tempo depois ele descobre que o corpo do seu filho foi encontrado e que o mesmo fora assassinado de uma forma brutal. Logo em seguida somos apresentados a outros personagens, quatro combatentes e amigos de Mike que são literalmente colocados contra a parede por Hank e pela detetive Emily Sanders (Charlize Theron) que o auxilia na tarefa. Tommy e Charlize estão ótimos. Tommy indicado ao Oscar de melhor ator este ano, transformou um papel em uma cruzada. Um personagem que merecia uma atuação centrada e precisa que só Tommy Lee Jones poderia criar, fazia tempos que Jones não ganhava um presente como este e felizmente no ano de 2007 ele foi congratulado com dois, adicionado a sua carreira também o glorioso “Onde os Fracos Não Têm Vez”. Charlize preenche algo que faltou no personagem de Jones, formando uma dupla mais que dinâmica e congruente no que diz respeito contradição e adição. E não devemos esquecer da incansável Susan Sarandon que trabalhou bastante este ano. Perdi a conta em quantas produções eu a vi este ano. Susan faz a personagem da esposa de Hank (Jones) que dá vida a uma mulher que não tem vida por viver num ambiente autoritário e machista. Uma mulher que ganha vida quando desaba em choro ao desabafar com o marido que negligencia o direito de uma mãe proteger o filho, privando-o de qualquer perigo que ele possa sofrer. Susan está emocionante como sempre.

 

Paul Haggis, que também dirigiu e escreveu o premiado “Crash – No Limite”, volta a mexer com a sociedade americana nesta sua película que também dirige e assina o roteiro. O filme retrata a capacidade dos americanos de se contradizerem. Mandam milhares de jovens que na lei norte-americana não podem responder por alguns atos considerados irresponsáveis, mas jogam em suas mãos a responsabilidade de carregarem uma arma e defender uma causa que é verdadeiramente pessoal do líder ianque. Jovens que vivem com medo do que pode acontecer a eles, seja à mercê de um ataque ao país mais odiado do mundo, ou jovens que tem medo de dar o próximo passo para o sucesso ou tranqüilidade pessoal.

 

Em português, “In The Valley of Elah”, No Vale de Elah. Hank, em um ponto tranqüilo do filme, conhece o filho da personagem de Theron e conta ele a história de Davi e Golias. A batalha do gigante Golias contra o pequeno Davi se deu na planície de Elah e foi aí que Davi conseguiu derrotar o gigante só com uma pedrada. E esta é a metáfora usada para carregar o filme dando nome ao sentimento de medo em que os jovens americanos estão mergulhados. Perdidos numa causa que não é deles. Jovens que são submetidos a situações impensadas e voltam perturbados e não são auxiliados pelo próprio governo que os mandou. Onde haveria de ter todo um acompanhamento psicológico, há o abandono e a alienação, alieNAÇÃO.

 

 

*Reginaldo Filho, é meu amigo, estudante de Jornalismo, Cinéfilo e crítico de Cinema do site www.foque.com.br

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 217 other followers