Reginaldo Filho*
Não, não é guerra. Guerra é guerra propriamente dita, quando os dois oponentes dispõem de um mesmo poder de fogo para poder fazer seus estragos, e não é isso que acontece entre EUA e Iraque. E por falar em represália ao Iraque, o cinema ao longo dos últimos 7 anos tem tratado o assunto as vezes brutal e as vezes delicadamente. Visto também que a guerra contra o terror fez com que os assuntos em terras orientais fossem ficar mais interessantes para os cidadãos do mundo ocidental e o que realmente ocorre lá. Falou-se muito sobre tropas americanas involuntárias indo defender o patriotismo ‘dumb’ ianque e na telona também se falou. Uma das mais felizes produções para o cinema no ano de 2007 se chama “No Vale das Sombras” (In the Valley of Elah) de Paul Haggis.
O filme, que é baseado em uma história real, é centrado em Hank Deerfield (Tommy Lee Jones), um oficial de carreira do exército americano que recebe a informação que seu filho Mike (Jonathan Tucker) recém-chegado do Iraque não retornou a base depois de ter uma licença. Preocupado com este comportamento irresponsável de seu filho e conseqüentemente atípico, Hank vai até o estado onde se encontra a base para poder procurar o seu filho desaparecido. Algum tempo depois ele descobre que o corpo do seu filho foi encontrado e que o mesmo fora assassinado de uma forma brutal. Logo em seguida somos apresentados a outros personagens, quatro combatentes e amigos de Mike que são literalmente colocados contra a parede por Hank e pela detetive Emily Sanders (Charlize Theron) que o auxilia na tarefa. Tommy e Charlize estão ótimos. Tommy indicado ao Oscar de melhor ator este ano, transformou um papel em uma cruzada. Um personagem que merecia uma atuação centrada e precisa que só Tommy Lee Jones poderia criar, fazia tempos que Jones não ganhava um presente como este e felizmente no ano de 2007 ele foi congratulado com dois, adicionado a sua carreira também o glorioso “Onde os Fracos Não Têm Vez”. Charlize preenche algo que faltou no personagem de Jones, formando uma dupla mais que dinâmica e congruente no que diz respeito contradição e adição. E não devemos esquecer da incansável Susan Sarandon que trabalhou bastante este ano. Perdi a conta em quantas produções eu a vi este ano. Susan faz a personagem da esposa de Hank (Jones) que dá vida a uma mulher que não tem vida por viver num ambiente autoritário e machista. Uma mulher que ganha vida quando desaba em choro ao desabafar com o marido que negligencia o direito de uma mãe proteger o filho, privando-o de qualquer perigo que ele possa sofrer. Susan está emocionante como sempre.
Paul Haggis, que também dirigiu e escreveu o premiado “Crash – No Limite”, volta a mexer com a sociedade americana nesta sua película que também dirige e assina o roteiro. O filme retrata a capacidade dos americanos de se contradizerem. Mandam milhares de jovens que na lei norte-americana não podem responder por alguns atos considerados irresponsáveis, mas jogam em suas mãos a responsabilidade de carregarem uma arma e defender uma causa que é verdadeiramente pessoal do líder ianque. Jovens que vivem com medo do que pode acontecer a eles, seja à mercê de um ataque ao país mais odiado do mundo, ou jovens que tem medo de dar o próximo passo para o sucesso ou tranqüilidade pessoal.
Em português, “In The Valley of Elah”, No Vale de Elah. Hank, em um ponto tranqüilo do filme, conhece o filho da personagem de Theron e conta ele a história de Davi e Golias. A batalha do gigante Golias contra o pequeno Davi se deu na planície de Elah e foi aí que Davi conseguiu derrotar o gigante só com uma pedrada. E esta é a metáfora usada para carregar o filme dando nome ao sentimento de medo em que os jovens americanos estão mergulhados. Perdidos numa causa que não é deles. Jovens que são submetidos a situações impensadas e voltam perturbados e não são auxiliados pelo próprio governo que os mandou. Onde haveria de ter todo um acompanhamento psicológico, há o abandono e a alienação, alieNAÇÃO.

Escrito por mediaalternativa