O Brasil completa 187 anos de independência. Mas de quem é essa independência? Dados do IBGE revelam que 53 milhões de brasileiros ‘livres’ vivem abaixo da linha da pobreza
[Bruno Rebouças, jornalista e editor
Sete de setembro de 1822. Dom Pedro I grita às margens do rio Ipiranga a independência do Brasil e liberta o país das amarras de Portugal. Poucos países no mundo não guerrearam para conseguir sua liberdade. O Brasil foi um deles. Posso ser injusto com os negros, escravos, abolicionistas e intelectuais que fizeram pressão para o fato acontecer. Mas é assim que os livros oficiais e a grande imprensa fazem com os nossos heróis. E durante os quase dois séculos da declarada independência, ouvimos a glorificação de um único homem como o responsável pelo livramento de um país explorado.
Quase dois séculos depois a independência ainda não veio. Votar para presidente é apenas um detalhe numa democracia. Outra coisa que a democracia exige, mas a grande imprensa não divulga, é a troca do poder. A perpetuação do poder pelos políticos sejam vereadores, deputados e presidente é ditadura. Uma coisa aberta, disfarçada, mas é. É assim com os governos de frente popular, como o presidente Lula. É assim com o presidente da Assembléia Legislativa, deputado estadual Robson Faria, que está há 15 anos no mesmo cargo, presidente da casa. Com a governadora Wilma de Faria que se perpetua no poder, de forma seguida, há 15 anos. Liberdade de escolha e de ir e vir são outras teses da democracia que os partidos neoliberais e a grande imprensa tanto pregam, mas que não são cumpridos, nem denunciados.
Quando Dom Pedro I gritou a independência, talvez ele tenha imaginado um país prospero, porém a abolição dos escravos só veio em 1888, então não se engane. O grito de independência não foi para libertar um povo, e sim, como acontece hoje, para esfriar os ânimos dos seus correligionários. Como diz um celebre samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira, Cem anos de liberdade, realidade e ilusão, “Hoje dentro da realidade, onde está à liberdade, onde está que ninguém viu”.
“SOU BRASILEIRO, SOU PATRIOTA, MAS EU NÃO SOU IDIOTA”
Em sete de setembro de 2009, um grupo de 150 estudantes, em Brasília, fizeram manifestações e gritaram sábias palavras como as do subtítulo. Porque no Brasil se criou uma cultura de que não somos patriotas. E vendo Brasil e Argentina, na TV, quem estava torcendo pela Argentina foi chamado de antipatriota. Sempre pensei que ser patriota é muito mais que torcer pela seleção ou para nossos atletas nas olimpíadas. Creio que ser patriota não é morrer pela pátria e viver sem razão, como cantou Geraldo Vandré, em 1968. A máxima de ser patriota é defender que as nossas riquezas fiquem para o nosso povo. Um exemplo mínimo é a produção do Melão, do RN, na qual 90% da safra são exportadas, deixando para os potiguares os outros 10%, das quais 5% estão podres. Patriota não é desfilar em sete de setembro e aplaudir autoridade que está na sombra do palanque, enquanto os que fazem esse país queimam ao sol. E ser patriota, não é aplaudir militares que mataram e aterrorizaram nosso país durante 20 anos. Certo que muitos a desfilar não o fizeram, mas herdam a nossa antipatia.
E não saber cantar o hino nacional, como diz alguns jornalistas ignorantes, não é falta de patriotismo ou burrice. É falta de investimento na educação dos governos que os avestruzes defendem. Em Artigo a revista Carta Capital, Luiz Gonzaga Belluzo, economista e presidente do Palmeiras diz claramente:
“[...] espírito de classe da maioria da imprensa brasileira. Não se acomoda na sua militância a favor de privilégios para os mais ricos [...] E, como todos sabem, não é o partido do povo brasileiro. Ela não toma partido a favor de quaisquer projetos que beneficiem as maiorias, as multidões. Seus olhos estão permanentemente voltados para os privilegiados”.
Não é você que é antipatriota. É o governo. É o presidente. É a prefeita. São os deputados. Os vereadores fanfarrões. Você não saber canta o hino nacional é culpa deles que junto com o presidente destinam 10 bilhões de dólares para o FMI, que explora esse país há mais de 50 anos. Em vez de investir na educação, saúde e moradia. Segurança. Geração de emprego.
Patriotismo é lutar pela melhoria do seu povo e não pela melhora do saldo dos cofres dos Estados Unidos e Europa. Patriotismo é lutar para o irmão não morrer de fome, e não enriquecer o banqueiro e dono de multinacional.
Os escândalos políticos demonstram a liberdade nesse país. Enquanto um desempregado, pai de família rouba uma lata de leite para alimentar sua filha e é condenado a três anos de prisão, um senador, deputado, vereador, com a maldita imunidade parlamentar, é absolvido dos roubos que comentem, em cifras 200 vezes maior. Se o trabalhador falta ao trabalho, é descontado no seu salário, quando não é demitido. Na última sexta, 04.09, o Congresso Nacional perdoou 85% das faltas ao trabalho dos Deputados e Senadores. Você é independente?
INDEPENDÊNCIA , MORTE E MERDA
De cada dez brasileiros um não sabe ler e escrever. Parece pouco. Mas multiplique esse valor por 180 milhões de habitantes. Dados do IBGE de 2000 revelam que 30,5% da população são analfabetos funcionais. Aqueles que só escrevem o nome e bilhetes simples, mas não entendem o que leem. No Brasil, 53 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, com aproximadamente, 30 dólares por mês. Vito Ginnotti, em seu livro, Muralhas da Linguagem [2004], alerta e indaga:
“Esses 53 milhões não são os únicos candidatos naturais ao analfabetismo de fato. Há outra faixa que lhes fica bem próxima. São os 85 milhões de brasileiros e brasileiras que vivem, de acordo com levantamento do IPEA, de 1999, com até dois salários mínimos. Alguém acredita que quem tenta sobreviver com até dois salários mínimos entrou alguma vez numa biblioteca, livraria, cinema, teatro ou algo parecido?”.
No ano de 2002, o IBGE concluiu que 81% dos brasileiros não terminaram o Ensino Médio, o segundo grau como é mais popular. Ou seja, cerca de 145 milhões de pessoas. Então, em 7 de setembro nós não temos o que comemorar. Deveríamos entra em luto, ou em depressão profunda. Pois como um país gasta 4 bilhões de dólares num helicóptero, enquanto seus filhos pedem dinheiro nos sinais, passam fome e morrem de frio embaixo de marquises de lojas luxuosas?
A questão não é independência ou morte. É morte para você trabalhador, independência para a minoria rica, poderosa e que vive nas amarras do governo. E merda para o restante da população, analfabeta e funcionais, que não cantam o hino nacional e que morre de fome, de frio e que de vez em sempre acham uma bala perdida.
“PAZ NO FUTURO E GLÓRIA NO PASSADO?”
Quando Dom Pedro I gritou a independência do Brasil com apenas cinco testemunhas, ele não libertou um país. Libertou os ricos da exploração portuguesa, pois os trabalhadores continuam sendo explorados até hoje e cada vez mais, vivendo uma das maiores cargas de trabalho do mundo. Além de pagar mais imposto que qualquer outro país na face da terra.
Como diz um rock and roll, dos anos de 1980, do RPM: “O caso Sudam, Maluf, Lalau, Barbalho, Sarney, e quem paga o jornal? É a propaganda, pois nesse país é o dinheiro que manda…”. Não há muito a comentar, não é?
Por fim, façamos couro para outro rock and roll de 1980, da Legião Urbana.
Que país é esse? É a… Você sabe o resto. Cante.
Escrito por mediaalternativa
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