A eficácia da Polícia

maio 7, 2010

Bruno Rebouças, [jornalista e editor do foque.com.br que teve dois primos assassinados, sem que os culpados nunca fossem presos]

 

Natal, dezembro de 2009. Um grupo de amigos alugou uma casa na praia para confraternização de fim de ano. No meio da festa, quatro bandidos armados entram na casa, rendem os homens e estupram as mulheres. Quatro ou cinco meses depois os bandidos são presos, pois alguém os denunciou.

Em 2008, com a onda de assaltos a ônibus, uma estudante de Enfermagem é assassinada. Até hoje, ninguém foi preso. Duas meninas voltam do colégio, um homem as estupram, um pai desesperado pede justiça e nada acontece. Todos os dias jovens inocentes, pais de famílias são assassinados na cidade do sol e nada é resolvido. Nenhum suspeito é preso.

Vidas são perdidas por negligência do governo que só pensa numa Copa do Mundo que está praticamente perdida. A polícia não mostra sensibilidade e boa vontade para correr atrás de quem merece ser seguido. Micarla só trata de trocar secretários, pois todos vêem que a administração ‘verde’ é um samba do crioulo doido.

Em abril de 2009, um policial em ronda pelo bairro de Felipe Camarão foi assassinado com uma grande quantidade de tiros. Crime trágico. Mas não menos trágico são os demais crimes sofridos pela maioria da população que não usa farda. Mais um crime em nossa cidade.

A polícia se movimentou. Juntou todo seu aparato técnico e fez buscas nas casas. Invadiram casas sem ordem. Agrediram e censuraram a imprensa. ‘Vá filmar sua mãe, disse um deles. O helicóptero, raramente visto em operações, estava na ação também. Em dois dias. Dois dias, recorde para nossa polícia, todos os suspeitos foram detidos. Um morreu em troca de tiro com os policias revoltados, devido à perda do amigo querido. Companheiro de profissão. A polícia demonstrou toda a sua eficácia… Sua força e sua boa vontade.

E mostrou, para toda a sociedade civil que quando eles querem, eles podem e fazem. A vida de uma pessoa, com ou sem farde, vale a mesma coisa. Conversando com pessoas ‘comuns’, como o porteiro da nossa redação ele bem disse: ‘a vida do policial é mais valiosa que a minha?’. É Isto o que a sociedade não fardada está pensando. A sociedade indefesa que não tem influencia política.

Solidarizo-me com a morte de qualquer pessoa, não importa se presidente, coronel, policial, político ou gari. Todas as vidas têm o mesmo valor. José Luciano de Oliveira,  34 anos, tinha uma vida inteira pela frente. Assim como as vítimas diárias também. À família de Luciano fica os meus pésames, mas para eles não ficará o sentimento de impunidade, como o pai que teve suas duas filhas estupradas; Ou o pai que perdeu a filha, com futuro promissor, assassinada dentro de um ônibus.

Achamos louvável a captura dos assassinos do policial Luciano, pois menos quatro bandidos circulam pelas ruas. Nós só queremos, acima de tudo, um tratamento igual quando, por exemplo, morrer um sorveteiro ou o ASG. É preferível que ninguém morra. Mas como a violência se alastra e os governantes estão em busca dos seus interesses, apenas, que se faça, ao menos, justiça.


Rio 2016: farra de verba pública

outubro 10, 2009

[Bruno Rebouças, jornalista

TV Globo e Record transmitiram ao vivo a escolha da sede das Olimpíadas de 2016 de forma integral. Muitos comentários, entusiasmo e muita torcida. O Brasil fez uma apresentação emocionante, e tinha que ser forte para não se emocionar. No fim venceu o Brasil e a América do Sul que nunca foi sede dos jogos e por isso leva essa. Como desvantagem, Madri teve Londres 2012, assim como Tóquio tinha Pequim [2008] no mesmo continente. No Rio foi feriado facultativo, não teve aula em escolas públicas. No restante do Brasil a expectativa. Nos blogs muitos jornalistas prós e outros contras a candidatura do Rio. Fico com os contras e começo a dizer por que. Primeiro, pela farra de dinheiro que será gritante para a realização dos jogos. Segundo, não aceito o argumento de que a estrutura fica. Fica para quem? Ninguém. O mesmo argumento foi usado para o Panamericano de 2007 e, hoje, só temos notícias da sucata que virou a Vila Olímpica, após os jogos. “O tal “legado”, além de uma espetacular agressão à nossa capacidade de raciocinar é uma tentativa de piada mal acabada”, disse José Cruz em seu blog na UOL.

Não sou dos que acham que o Brasil não tem condições de fazer uma Copa ou Olimpíada. Creio que capacidade há. Dinheiro, se não tiver tira da saúde, educação, até da mãe, isso não é problema. Não creio na boa vontade dos governantes. Terceiro, os gastos são enormes e não temos nenhuma estrutura pronta, diferente de Madri que tem 80% de tudo construído e Chicago que já tem o estádio Olímpico. Não adianta me chamar de antipatriota. É questão de olhar crítico. Não fiquei triste com a escolha do Rio, só acho, que nós como imprensa temos um papel enorme a cumprir até 2016. O papel social de nossa profissão jornalística, fiscalizar. A começar pelo gasto com o projeto que chegou a R$ 100 milhões. As obras do Rio 2016 estão orçadas em R$ 8 bilhões. Sendo que a Copa de 2014 está valendo, por baixo, R$ 55 bilhões. Em dois anos o Brasil investirá uma quantia que nunca investiu na educação e saúde.

O quarto motivo: Um país que não investe em esporte olímpico não poderia sediar os jogos. Somos os campeões dos bronzes e pratas. Em toda nossa história vencemos miseras 16 medalhas de ouro, em sua maioria, em esportes de classe média e alta, como vôlei, vela, natação e hipismo. Desde 1896 ganhamos 76 medalhas no total. Sendo 38 de bronze [nosso forte], 22 de prata e 16 de ouro. Os Estados Unidos venceram somente de ouro, 2188 medalhas. E não se trata de país rico, trata-se de investimentos no esporte como inclusão social e desenvolvimento humanístico. Um exemplo é Cuba, que trata o esporte como um gestor de educação. Até a olimpíada de 2008, Cuba era o país com mais medalhas em jogos olímpicos, por habitante do mundo. A ilha é um país pobre.

O Rio venceu e agora, mais que antes temos que cobrar a responsabilidade do governo em formar e preparar nossos atletas. Se o Rio perdesse, eu continuaria a cobrar isso dos agentes do poder, como fiz em 2008 com o texto: ‘Subdesenvolvimento Olímpico’ [procurar em: mediaalternativa.wordpress.com]. Não podemos pensar em olimpíada em quatro e quatro anos. E agora que somos sede, não podemos pensar nos jogos só daqui a sete anos, como diz o slogan do Comitê Olímpico para o país sede vencedor [see you here in seven years – ‘Vejo você aqui em sete anos’]. “A candidatura vitoriosa tem projetos de concretos. Mas não tem um projeto concreto para a promoção e valorização dos jovens atletas”, [blogdocruz.blog.uol.com.br].

Por esses motivos e outros sou contra a tal olimpíada. Mas torço para que haja vergonha na cara dos políticos e que se faça o projeto com seriedade, e sejam cumpridas todas as promessas feitas, sexta [02.10], ‘investiremos na juventude’. Denunciaremos qualquer omissão.


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