Rio 2016: farra de verba pública

Outubro 10, 2009

[Bruno Rebouças, jornalista

TV Globo e Record transmitiram ao vivo a escolha da sede das Olimpíadas de 2016 de forma integral. Muitos comentários, entusiasmo e muita torcida. O Brasil fez uma apresentação emocionante, e tinha que ser forte para não se emocionar. No fim venceu o Brasil e a América do Sul que nunca foi sede dos jogos e por isso leva essa. Como desvantagem, Madri teve Londres 2012, assim como Tóquio tinha Pequim [2008] no mesmo continente. No Rio foi feriado facultativo, não teve aula em escolas públicas. No restante do Brasil a expectativa. Nos blogs muitos jornalistas prós e outros contras a candidatura do Rio. Fico com os contras e começo a dizer por que. Primeiro, pela farra de dinheiro que será gritante para a realização dos jogos. Segundo, não aceito o argumento de que a estrutura fica. Fica para quem? Ninguém. O mesmo argumento foi usado para o Panamericano de 2007 e, hoje, só temos notícias da sucata que virou a Vila Olímpica, após os jogos. “O tal “legado”, além de uma espetacular agressão à nossa capacidade de raciocinar é uma tentativa de piada mal acabada”, disse José Cruz em seu blog na UOL.

Não sou dos que acham que o Brasil não tem condições de fazer uma Copa ou Olimpíada. Creio que capacidade há. Dinheiro, se não tiver tira da saúde, educação, até da mãe, isso não é problema. Não creio na boa vontade dos governantes. Terceiro, os gastos são enormes e não temos nenhuma estrutura pronta, diferente de Madri que tem 80% de tudo construído e Chicago que já tem o estádio Olímpico. Não adianta me chamar de antipatriota. É questão de olhar crítico. Não fiquei triste com a escolha do Rio, só acho, que nós como imprensa temos um papel enorme a cumprir até 2016. O papel social de nossa profissão jornalística, fiscalizar. A começar pelo gasto com o projeto que chegou a R$ 100 milhões. As obras do Rio 2016 estão orçadas em R$ 8 bilhões. Sendo que a Copa de 2014 está valendo, por baixo, R$ 55 bilhões. Em dois anos o Brasil investirá uma quantia que nunca investiu na educação e saúde.

O quarto motivo: Um país que não investe em esporte olímpico não poderia sediar os jogos. Somos os campeões dos bronzes e pratas. Em toda nossa história vencemos miseras 16 medalhas de ouro, em sua maioria, em esportes de classe média e alta, como vôlei, vela, natação e hipismo. Desde 1896 ganhamos 76 medalhas no total. Sendo 38 de bronze [nosso forte], 22 de prata e 16 de ouro. Os Estados Unidos venceram somente de ouro, 2188 medalhas. E não se trata de país rico, trata-se de investimentos no esporte como inclusão social e desenvolvimento humanístico. Um exemplo é Cuba, que trata o esporte como um gestor de educação. Até a olimpíada de 2008, Cuba era o país com mais medalhas em jogos olímpicos, por habitante do mundo. A ilha é um país pobre.

O Rio venceu e agora, mais que antes temos que cobrar a responsabilidade do governo em formar e preparar nossos atletas. Se o Rio perdesse, eu continuaria a cobrar isso dos agentes do poder, como fiz em 2008 com o texto: ‘Subdesenvolvimento Olímpico’ [procurar em: mediaalternativa.wordpress.com]. Não podemos pensar em olimpíada em quatro e quatro anos. E agora que somos sede, não podemos pensar nos jogos só daqui a sete anos, como diz o slogan do Comitê Olímpico para o país sede vencedor [see you here in seven years – ‘Vejo você aqui em sete anos’]. “A candidatura vitoriosa tem projetos de concretos. Mas não tem um projeto concreto para a promoção e valorização dos jovens atletas”, [blogdocruz.blog.uol.com.br].

Por esses motivos e outros sou contra a tal olimpíada. Mas torço para que haja vergonha na cara dos políticos e que se faça o projeto com seriedade, e sejam cumpridas todas as promessas feitas, sexta [02.10], ‘investiremos na juventude’. Denunciaremos qualquer omissão.