Jornalistas e jornaleiros

abril 7, 2011

 

Publiquei esse texto ano passado, porém, agora ele está editado e mais bem fundamentado, com Balzac, Millôr e Gabriel García Márquez.

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por Bruno Rebouças 

 

 

Quando acordei hoje pensei no título acima. Porque jornaleiro vende jornal e jornalista, de forma bem simples, confecciona-os. Mas confecciona como? No decorrer do texto você entenderá o que quero dizer. O jornaleiro que me refiro não é o senhor que tem uma banca de jornal e que vende diversas impressões. Não. O jornaleiro que me refiro são os ‘jornalistas’ que não tem o compromisso social, que não trabalham com profissionalismo e ética. São aqueles que fazem da profissão vitrine para auto se promoverem, chegar ao poder, entre outros exemplos. No Rio Grande do Norte existem muitos jornaleiros. Há também jornalistas. Em 7 de abril o dia é dos jornalistas, logo a minoria pode comemorar porque ainda não existe o dia do jornaleiro.

Os jornaleiros se preocupam primeiro com o lucro da empresa, depois com o conteúdo. O jornalista não. Esse é um ‘puro sangue’, como disse Balzac em ‘Os Jornalistas’. “O puro-sangue é um homem no qual a gerência é uma vocação, que compreende esta dominação, que tem prazer na exploração das inteligências, sem abandonar, porém, os lucros do jornal. Os dois outros (o ambicioso e o homem de negócios – em nosso caso o jornaleiro), fazem de sua folha um meio; enquanto, para o puro-sangue, sua folha é sua fortuna, sua casa, seu prazer, sua dominação: os outros se tornam personagens, o puro-sangue vive e morre jornalista” (p. 35, 1999).

Neste sentido, jornalistas são oposição e o resto é armazém de secos e molhados, como disse Millôr Fernandes. Jornaleiros não. Jornalistas não devem agradar a todos. Jornaleiros vivem disso. Nós jornalistas queremos mudar o mundo por mais que digam que tal feito é utopia. Os jornalistas sabem o significado dessa palavra, os jornaleiros não. Diz a lenda que jornalistas defendem o povo e, os jornaleiros (ou jornalistas oficiosos, como queira) defendem os patrões e os governantes.

Vamos ao futebol. Jornalistas torcem pela bola. Os jornaleiros torcem pela organização do evento. Jornalistas não vibram sobre a Copa de 2014 porque o Brasil é um país corrupto e que tem problemas muito maiores a serem resolvidos, do que gastar dinheiro com um campeonato de futebol que trará riqueza, apenas para os ricos e, a balela sobre estrutura é leviana. Não fica estrutura coisa alguma, como afirmou, em Natal, Juca Kfouri. Jornaleiros acham que a Copa beneficiará os pobres, coisa que não acontecerá, pois assim como sempre fizeram, eles assistirão a Copa pela televisão, só para citar a parte do lazer que os jornaleiros citam.

Jornalistas ficam preocupados com a Copa no Brasil, porque há um alto nível de politicagem no país, por exemplo, na escolha das sedes. Em Brasília houve superfaturamento de R$ 74 milhões, em uma das licitações da construção do estádio local. Os jornaleiros não veem a verdade. A verdade também diz que Natal está super atrasada em tudo que a FIFA determina. Mas por aqui, os jornaleiros dizem que está tudo sobre controle ou que é preconceito dos sudestinos contra o Nordeste.

Jornaleiro afirma. Jornalista pesquisa. Para o jornaleiro, ser ‘jornalista’ é ruim, pois não é uma profissão muito bem remunerada. Os jornalistas acham isso também, mas afirmam que vale a pena ser jornalista, porque “o jornalismo é a melhor profissão do mundo”, como disse Gabriel García Márquez.

Jornaleiros elegem presidente. Jornalistas os tiram. E se não tirar, denuncia as mazelas. O jornaleiro não gosta do jornalista, pois o último carrega a verdade consigo. O jornaleiro omite a verdade, mas não chega a odiá-la. A maior missão do jornaleiro é omitir e manipular a verdade, logo ele precisa dela, assim como o jornalista que a usa para informar, formar e educar porque não? Jornaleiros só informam. Cumprem suas pautas e seus expedientes. Apenas.

Apesar da precariedade do trabalho, da desvalorização da profissão e dos salários estagnados hoje é um dia de celebração. Só para os jornalistas, claro. Os jornaleiros irão comemorar, pois eles são maioria. Aos jornalistas resta, apenas, continuar trabalhando, denunciando e sendo do contra que ao menos a verdade estará presente nos jornais, rádios, sites e televisões. Não sou otimista. Os jornaleiros são 90% dos que trabalham com ‘jornalismo’. Mesmo sendo 10%, os jornalistas, ainda, podem mudar o mundo. Os jornaleiros não.


Um silêncio ensurdecedor

janeiro 21, 2011

 

Publicado no Observatório da Imprensa em 23/11/10

Bruno Rebouças, jornalista

 

Os Jornalistas do Rio Grande do Norte estão em campanha salarial. Os profissionais da mídia e da imprensa desse estado recebem o menor piso salarial do país. Um salário de R$ 900, quantia irrisória para se desenvolver uma profissão que precisa de formação constante. Para se ter ideia, um gari em Natal-RN recebe mais que R$ 1,000 (Mil reais). Não é que os garis natalenses ganhem muito, são os jornalistas quem ganham pouco.

Além dos protestos que o Sindjorn vem realizando, ora em frente à Delegacia Regional do Trabalho (DRT), ora com apoio do vereador da capital potiguar, George Câmara (PCdoB), ou de dois ou três deputados estaduais, os jornalistas utilizam uma fita preta em alusão ao luto que a categoria vive, por receber o indigesto título de piso salarial mais baixo do Brasil.

Para aumentar o descaso, o Sindicato dos Jornais, Televisões e Rádios propuseram um aumento de 3,5% que, em termos reais, seria nada mais nada menos que R$ 31,50. O Sindjorn propôs um piso único de R$ 1,500 (Mil e quinhentos reais) e mais quarenta e cinco clausuras, entre elas a de um valer refeição no valor de duzentos e vinte reais. O Sindicato patronal, além de negar as quarenta e cinco clausuras e de oferecer um aumento insignificante, propõe o fim das folgas semanais, desconsiderando um direito Constitucional. Como bem disse o deputado estadual Fernando Mineiro (PT), essa proposta é pré-CLT.

Além dessas ocorrências, está o mais grave deles: o silêncio dos meios de comunicação. Usando uma metáfora, utilizada por Nelson Rodrigues para descrever momentos de ‘tragédias’ futebolísticas, a grande imprensa do Rio Grande do Norte faz um silêncio ensurdecedor.

Fora alguns veículos de comunicação alternativa, como o site de mídia alternativa foque.com.br, o site nabocadomundo.com, o blog criado pelo Sindjorn (clique aqui) para divulgar o movimento e as tevês Câmara e Assembleia, o silêncio dos demais meios revela um fato, que até então a maioria dos jornalistas do RN não haviam percebido.

Millôr disse, certa vez, que “democracia sou eu mandar em você. Ditadura é você mandar em mim”. Pois é. A liberdade de imprensa é referente, única e exclusivamente ao dono do jornal, da rádio ou da televisão. A ‘liberdade’ que o jornalista utiliza é a liberdade em forma de concessão que o patrão concede. Diferente do Governo Federal, o patrão revisa para quem ele renovará a concessão de liberdade. Podemos dizer que o patrão caça a liberdade do jornalista, quando ele, o patrão, bem entende.

O silêncio que a grande imprensa norteriograndense, principalmente a de Natal, faz revela uma obscuridade sem tamanho da relação patrão funcionário. Relação essa que, segundo Karl Marx, movimenta a sociedade capitalista. Quando Traquina pergunta, quem vigia o quarto poder, ele não se refere, ao menos em meu entendimento, ao profissional jornalista, mas, sim, totalmente ao proprietário da concessão pública de rádio e televisão ou do jornal.

Quem vigia as mazelas do quarto poder? Ninguém. Pois, há jornalistas que manipulam notícias a mando dos seus chefes, como alguns relataram em audiência pública na Câmara Municipal de Vereadores e em discurso ao logo da campanha. Sendo justo, Jornalista que manipula fatos a mando do dono do veículo de comunicação também é culpado por tal fato. Não se trata de sermão e muito menos de julgamento moral, mas o compromisso do jornalista é com a verdade. O fato é que cada um faz as coisas de acordo com sua necessidade, realidade ou oportunidade.

O silêncio ensurdecedor da imprensa norteriograndense não é inesperado. Como bem disse Assis Chateaubriand, “quer ter opinião, compre um jornal”. A campanha salarial dos jornalistas do RN pode não se sair vitoriosa, mas serviu para três coisas: Reunificar a categoria em volta do Sindjorn; Baixar a crista de 90% dos jornalistas que se sentem a cereja do bolo, por trabalhar na ‘grande’ imprensa; terceiro e, principalmente, para demonstrar que os veículos de comunicação se preocupam apenas com seus lucros e que, não movem um centímetro para melhorar a vida de seus jornalistas.

Por fim, a liberdade de imprensa não é dos jornalistas. Essa tal liberdade de imprensa é a liberdade do patrão em imprimir e estampar na capa do jornal, aquilo que interessa a ele e ao seu grupo político-empresarial.


Caros generais, almirantes e brigadeiros

fevereiro 4, 2010

Por Marcelo Rubens Paiva

Eu ia dizer “caros milicos”. Não sei se é um termo ofensivo. Estigmatizado é. Preciso enumerar as razões?

Parte da sociedade civil quer rever a Lei da Anistia. Sugeriram a Comissão da Verdade, no desastroso Programa Nacional de Direitos Humanos, que Lula assinou sem ler. Vocês ameaçaram abandonar o governo, caso fosse aprovado.

Na Argentina, Espanha, Portugal, Chile, a anistia a militares envolvidos em crimes contra a humanidade foi revista. Há interesse para uma democracia em purificar o passado.

Aqui, teimam em não abrir mão do perdão. E têm aliados fortes, como o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apesar de civil apareceu num patético uniforme de combate na volta do Haiti. Parecia um clown.

Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura. Devem ter navegado na contracultura, dançado Raul Seixas, tropicalistas. Usaram cabelos compridos, jeans desbotados? Namoraram ouvindo bossa nova? Assistiram aos filmes do Cinema Novo?

Leia a íntegra do texto clicando aqui:

http://blogdojuca.blog.uol.com.br/arch2010-01-31_2010-02-06.html#2010_02-04_15_28_02-9991446-0

Trecho retirado do Blog do jornalista Juca Kfouri. Vale a pena ler esse texto.


O Alecrim é o bairro do Povo

dezembro 1, 2009

 [Bruno Rebouças, jornalista

 

Sua televisão de modelo antigo, não mais fabricada, quebrou? Calma, tem concerto. É só ir procurar no Alecrim que você encontra a peça que falta. O Alecrim parece uma feira do mundo. Tudo se acha. Tudo mesmo. Lógico que se encontra tudo no bom sentido, no mal também. Bairro acolhedor e um pouco mal organizado, mas quem não gosta de uma bagunça? O bairro do Alecrim comemorou 98 anos, no último dia 23. O Alecrim tem uma história magnífica. Tem um relógio, que não funciona, é verdade, mas tem a feira, e o camelódromo, que você encontra até aquele filme que a Xuxa faz sexo com um boyzinho.

O Alecrim é a tradição de Natal. Nos últimos meses viveu uma efervescência com a ascensão do seu time, que já está na série C, e que provavelmente irá enfrentar ABC ou América, ou quem sabe os dois na terceirona. O Alecrim político. Com o histórico comício na Praça Gentil Ferreira, na Rua Mário Negócio, em 1984, reclamando as Diretas Já. O Alecrim da igreja de São Pedro, imponente no alto da capela olhando a cidade. O Alecrim da Praça Pedro II; do Colégio das Neves e do Padre Miguelinho, instituições que formaram tantas mentes brilhantes do Estado. Assim como o colégio Sagrada Família; Tem o cemitério público, datado de 1856, quando o alecrim era ainda, um roçado com algumas casas de taipa. O Alecrim é tudo.

O bairro foi oficializado, em 30 de setembro de 1947. Mas seu aniversário é comemorado dia 23 de outubro. Para as comemorações dos 100 anos a prefeitura promete, já para novembro, um novo relógio na Praça Gentil Ferreira para a contagem regressiva até 23 de outubro de 2011. A prefeita até foi pessoalmente dar parabéns ao Alecrim. Levou bolo e falou das míseras 500 lâmpadas que mandou trocar para melhorar a iluminação, além da brilhante e nova pintura da Praça Gentil Ferreira. Assim não vale. Micarla está se tornando a prefeita propaganda, no quesito, entendam, fazer política 24 horas por dia.

Mas voltando para o Alecrim. Segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo, o bairro da zona Leste tem mais de 30 mil habitantes. O Alecrim é um centro comercial. Algo mais alternativo, outra opção de mercado e mercadoria. O Alecrim não tem o saudosismo da população. Mas é uma questão popular, quer dizer, natalense. Enquanto o Rio tem a Lapa, que seria a nossa Ribeira, cultural e não mais charmosa por falta de uma política pública. O Alecrim tem e teve seus boêmios, intelectuais que varavam a noite, entre bebidas e bate papo.

Para comemorar esses 98 anos, a prefeitura armou apresentações de grupos folclóricos, atrações musicais e ação de cidadania. A festa contou com a presença do Alecrim Futebol Clube e da Escola de Samba Imperatriz Alecrinense; além de blocos carnavalescos e tribos de índios. A Banda Sinfônica da Cidade do Natal e o Ballet Municipal fizeram suas apresentações. Tudo isso aconteceu nas principais ruas do bairro com concentração na Praça Gentil Ferreira. O parabéns foi orquestrado pela Banda de Música dos Fuzileiros Navais.

Apesar da alegria e da homenagem feita a esse glorioso bairro, esperamos que a prefeitura não fique só no saudosismo de aniversário, e planeje junto com a SEMURB uma obra de melhoria concreta para o quase centenário bairro do Alecrim. E não fique, apenas, pintando praça e trocando lâmpada.

O bairro do povo tem que ser preservado, parabéns, Alecrim.


Rio 2016: farra de verba pública

outubro 10, 2009

[Bruno Rebouças, jornalista

TV Globo e Record transmitiram ao vivo a escolha da sede das Olimpíadas de 2016 de forma integral. Muitos comentários, entusiasmo e muita torcida. O Brasil fez uma apresentação emocionante, e tinha que ser forte para não se emocionar. No fim venceu o Brasil e a América do Sul que nunca foi sede dos jogos e por isso leva essa. Como desvantagem, Madri teve Londres 2012, assim como Tóquio tinha Pequim [2008] no mesmo continente. No Rio foi feriado facultativo, não teve aula em escolas públicas. No restante do Brasil a expectativa. Nos blogs muitos jornalistas prós e outros contras a candidatura do Rio. Fico com os contras e começo a dizer por que. Primeiro, pela farra de dinheiro que será gritante para a realização dos jogos. Segundo, não aceito o argumento de que a estrutura fica. Fica para quem? Ninguém. O mesmo argumento foi usado para o Panamericano de 2007 e, hoje, só temos notícias da sucata que virou a Vila Olímpica, após os jogos. “O tal “legado”, além de uma espetacular agressão à nossa capacidade de raciocinar é uma tentativa de piada mal acabada”, disse José Cruz em seu blog na UOL.

Não sou dos que acham que o Brasil não tem condições de fazer uma Copa ou Olimpíada. Creio que capacidade há. Dinheiro, se não tiver tira da saúde, educação, até da mãe, isso não é problema. Não creio na boa vontade dos governantes. Terceiro, os gastos são enormes e não temos nenhuma estrutura pronta, diferente de Madri que tem 80% de tudo construído e Chicago que já tem o estádio Olímpico. Não adianta me chamar de antipatriota. É questão de olhar crítico. Não fiquei triste com a escolha do Rio, só acho, que nós como imprensa temos um papel enorme a cumprir até 2016. O papel social de nossa profissão jornalística, fiscalizar. A começar pelo gasto com o projeto que chegou a R$ 100 milhões. As obras do Rio 2016 estão orçadas em R$ 8 bilhões. Sendo que a Copa de 2014 está valendo, por baixo, R$ 55 bilhões. Em dois anos o Brasil investirá uma quantia que nunca investiu na educação e saúde.

O quarto motivo: Um país que não investe em esporte olímpico não poderia sediar os jogos. Somos os campeões dos bronzes e pratas. Em toda nossa história vencemos miseras 16 medalhas de ouro, em sua maioria, em esportes de classe média e alta, como vôlei, vela, natação e hipismo. Desde 1896 ganhamos 76 medalhas no total. Sendo 38 de bronze [nosso forte], 22 de prata e 16 de ouro. Os Estados Unidos venceram somente de ouro, 2188 medalhas. E não se trata de país rico, trata-se de investimentos no esporte como inclusão social e desenvolvimento humanístico. Um exemplo é Cuba, que trata o esporte como um gestor de educação. Até a olimpíada de 2008, Cuba era o país com mais medalhas em jogos olímpicos, por habitante do mundo. A ilha é um país pobre.

O Rio venceu e agora, mais que antes temos que cobrar a responsabilidade do governo em formar e preparar nossos atletas. Se o Rio perdesse, eu continuaria a cobrar isso dos agentes do poder, como fiz em 2008 com o texto: ‘Subdesenvolvimento Olímpico’ [procurar em: mediaalternativa.wordpress.com]. Não podemos pensar em olimpíada em quatro e quatro anos. E agora que somos sede, não podemos pensar nos jogos só daqui a sete anos, como diz o slogan do Comitê Olímpico para o país sede vencedor [see you here in seven years – ‘Vejo você aqui em sete anos’]. “A candidatura vitoriosa tem projetos de concretos. Mas não tem um projeto concreto para a promoção e valorização dos jovens atletas”, [blogdocruz.blog.uol.com.br].

Por esses motivos e outros sou contra a tal olimpíada. Mas torço para que haja vergonha na cara dos políticos e que se faça o projeto com seriedade, e sejam cumpridas todas as promessas feitas, sexta [02.10], ‘investiremos na juventude’. Denunciaremos qualquer omissão.


Nunca na história desse mundo…

outubro 1, 2009

Estudo do Programa Mundial de Alimentação da Organização das Nações Unidas (PMA) revela que 87 milhões de habitantes passaram a sofrer de fome, em 2009

[Bruno Rebouças, jornalista

 

Antes do mundo entrar em recessão, o homem nunca havia produzido tanta comida, carro, construção imobiliária e tantos outros produtos. Com a recessão, que assola grandes economias, mais miseráveis apareceram no mundo. No Brasil, o governo investe pesado na maior compra de votos a céu aberto da história, as bolsas assistencialistas. Bolsas que, realmente, ajudam famílias, porém, não formam novas mentes. Trotsky já havia dito que o Estado se resume na força. As bolsas assistencialistas não deixam de ser a força do Estado perante a população, refém ao presidente Lula e ao seu pseudo-governo dos trabalhadores, como bem disse, Manoel Moura Filho, do INSS-RN, que estava em greve de fome há 37 dias por ter tido, assim como todos os servidores do INSS, 84,32% do seu salário confiscado pelo governo.

No ano de 2009, uma pesquisa publicada em 16 de setembro, pelo Programa Mundial de Alimentação da ONU, revelou ao mundo um número assombroso. Apenas neste ano, 87 milhões de pessoas pelo mundo todo entraram na zona dos famintos, aqueles que não tem o que comer todos os dias; os que vivem abaixo da linha da miséria. Muitos que perderam seus empregos devido a mais uma crise do capitalismo, que gera muita riqueza... Para seus donos.

A pesquisa revela que no mundo atual, nunca se teve tanta gente passando fome. Estima-se que esse número é de 1,02 bilhão de habitantes. É quase o mesmo número da China, o país mais populoso da Terra. O estudo ainda diz que “em muitos países em desenvolvimento, os pobres não podem se dar ao luxo de comprar comida. Ao mesmo tempo, os infortúnios econômicos significam que muitos países ricos têm cortado o financiamento à assistência alimentar. É uma receita para o desastre”, diz o estudo do PMA, que ainda revela que a ajuda dos países ricos é a mais baixa em 20 anos.

O orçamento da PMA corresponde a 6,7 bilhões de dólares para combater a fome. Porém, em 2009, eles só receberam 30% desse valor [cerca de 1,8 bilhão], que só dá para tentar ajudar 108 milhões de habitantes. Ou seja, um bilhão, seiscentos e noventa e dois milhões de pessoas continuarão a passar fome. Mesmo que o Programa Mundial de Alimentação, recebesse os 6 bilhões anuais, não seriam suficientes para alimentar os cerca de 1 bilhão de famintos. Seria necessários mais 3 bilhões de dólares, somando 9 bilhões. Vale ressaltar que essa quantia não acabaria com a fome no mundo, mas sim, proporcionaria uma alimentação diária, apenas. Um dos entrevistados na pesquisa, um geólogo de 34 anos, contou que na República Democrática do Congo (ex-Zaire), a fome impõe escolhas radicais para as famílias. “Em algumas famílias, se o pai e dois filhos comem hoje, amanhã ficam sem se alimentar para dar lugar à mulher e às outras crianças. Não existe comida para todos”, alertou.

Por fim, enquanto famílias pelo mundo afora fazem rodízio para quem come, Obama investe, em empresas falidas, 700 bilhões de dólares e Lula empresta 10 bilhões ao FMI. O Brasil gastou 3 bilhões de reais nos jogos Panamericanos. Só para a candidatura do Rio, para sede das Olimpíadas de 2016, já foram gastos 180 milhões. Ou seja, 1 milhão para cada habitante do Brasil, até 2002. Se for escolhida sede de 2016, em 2 de outubro, o orçamento será de 38 bilhões de dólares. Para 2014, só no projeto de Natal, será gasto, com toda a estrutura, 1,2 bilhão de reais. Dinheiro mais que suficiente para exterminar a fome no mundo.


Senadores gastam mais de R$ 330 mil reais com gasolina

setembro 28, 2009

De junho a agosto, senadores consumiram 18 anos de combustível

[Bruno Rebouças, jornalista 

 

Quando o time perde, torcedores invadem o gramado, vestiário. Ameaçam famílias e matam pessoas que torcem por outra equipe. Quando o assunto é político, 98% da população brasileira não se rebelam com tanto vigor. Sarney decretou mais de 600 atos secretos e nada aconteceu. Lula faz suas cagadas e alguns criticam. Como tem a imprensa em suas mãos os políticos não sofrem pressão da maior parte da imprensa. Logo, não são pressionados de maneira efetiva por parte da população, que está mais preocupada em chegar em casa com segurança, ou em o que dar para o filho comer no outro dia. Justo, já que vivemos num país miserável, onde 54 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza; fora a taxa gigante de analfabetos.

O fato é que, se fossemos um povo mais politizado todas as falcatruas dos políticos, os 512 picaretas da Câmara e do Senado que nos enganam e levam nosso dinheiro para gastar ao bel prazer deles mesmos, seriam expulsos do parlamento. Como torcedores da Portuguesa fizeram, quando invadiram os vestiários armados e ameaçaram jogadores, o mesmo deveria ser feito com senadores e deputados quando esses armam seus golpes diante do povo.

O mais novo fato em evidência no Congresso Nacional é o valor da verba indenizatória dos senadores de R$ 15 mil reais. Destaque para o valor pago em gasolina. O novo portal R7 fez uma conta considerando o gasto de gasolina por um taxista em São Paulo, que anda em médio 200 quilometros por dia e gasta para encher o tanque R$ 1.485 por mês. A quantia que os senadores consumiram em apenas três meses seria suficiente [sente para não cair], para esse mesmo taxista andar 18 anos com o tanque cheio.

O portal R7 ainda está disponibilizando dicas para como fiscalizar [clique aqui] os senadores em relação a tal verba indenizatória. O campeão em gasto de gasolina, senador Gilberto Goellner [DEM-MT], queimou 10 vezes mais que um taxista utiliza num mês. A lista é bastante grande. Gilberto Goellner justificou dizendo que utilizou R$ 26 mil reais em combustível em viagens ao interior do Mato Grosso. Vale lembrar que senador, não paga gasolina em Brasília, pois tem um carro oficial a sua disposição com motorista. Esses gastos com gasolina foram feitos nos Estados, onde os senadores foram eleitos.

A maioria dos senadores justificaram da mesma forma que Goellner, declarando viagens pelo interior, audiência pelo estado e mais e mais blablablá. Nenhum deles, porém, declarou que esse valor foi gasto em apenas um posto de gasolina em seus estados. O que demonstra um favorecimento a um único grupo empresarial do setor.

Que o Rio Grande do Norte está em evidência política e prestígio nacional ninguém duvida. Mas é consenso que para conseguir garantias e melhorias para a população do Estado os Senadores e Deputados Federais não agilizam nada. Só conversam com autoridades do governo, quando vão pedir apoio em campanhas e virar sede da Copa.

A evidência desses nossos políticos é tanta que entre os dez senadores que mais gastaram, estão Garibaldi Alves e José Agripino. O senador Garibaldi, motivo de zoação pela imprensa, quando era presidente do senado, gastou R$ 10.752,06 com gasolina no RN, sempre no mesmo posto: Zumba Petróleo LTDA. Agripino gastou R$ 8.964,68, também, sempre no mesmo posto: Flor & Cia LTDA.

É revoltante essa situação, ou até mesmo engraçado. É claro que a graça está no humor negro. Porque é fato que enquanto os políticos nos zoam, crianças não são atendidas no Walfredo Gurgel que terá sua pediatria fechada, de forma arbitrária pelo governo do estado, assim como o Hospital Santa Catarina. Enquanto os senadores queimam uma quantidade de combustível absurda, pais de famílias morrem quando voltam do trabalho por falta de segurança.

A população é esquecida por esses políticos que tanto lutam para ter essas regalias que o Estado lhes dão. Em 2010, eles lembrarão de você, somente. Não esqueçam eles. E dê sua resposta com o seu voto, dizendo não ao projeto político de cada um deles. Governadores, deputados estaduais e federais, senadores e presidente. Que no conjunto da obra só defendem os interesses deles e dos seus currais políticos.

Confira os 10 primeiros colocados:

1. Gilberto Goellner (DEM-MT) – R$ 26.254,68

2. Marconi Perillo (PSDB-GO) – R$ 16.474,31

3. Expedito Júnior (sem partido-RO) – R$ 15.016,00

4. Augusto Botelho (PT-RR) – R$ 13.721,61

5. Mário Couto (PSDB-PA) – R$ 13.581,23

6. Magno Malta (PR-ES) – R$ 13.169,15

7. Mão Santa (sem partido-PI) – R$ 11.117,83

8. Garibaldi Alves (PMDB-RN) – R$ 10.752,06

9. Cícero Lucena (PSDB – PB) – R$ 9.808,15

10. José Agripino (DEM – RN) – R$ 8.964,68


INDEPENDÊNCIA DE QUEM?

setembro 11, 2009

O Brasil completa 187 anos de independência. Mas de quem é essa independência? Dados do IBGE revelam que 53 milhões de brasileiros ‘livres’ vivem abaixo da linha da pobreza

[Bruno Rebouças, jornalista e editor

 

Sete de setembro de 1822. Dom Pedro I grita às margens do rio Ipiranga a independência do Brasil e liberta o país das amarras de Portugal. Poucos países no mundo não guerrearam para conseguir sua liberdade. O Brasil foi um deles. Posso ser injusto com os negros, escravos, abolicionistas e intelectuais que fizeram pressão para o fato acontecer. Mas é assim que os livros oficiais e a grande imprensa fazem com os nossos heróis. E durante os quase dois séculos da declarada independência, ouvimos a glorificação de um único homem como o responsável pelo livramento de um país explorado. 

Quase dois séculos depois a independência ainda não veio. Votar para presidente é apenas um detalhe numa democracia. Outra coisa que a democracia exige, mas a grande imprensa não divulga, é a troca do poder. A perpetuação do poder pelos políticos sejam vereadores, deputados e presidente é ditadura. Uma coisa aberta, disfarçada, mas é. É assim com os governos de frente popular, como o presidente Lula. É assim com o presidente da Assembléia Legislativa, deputado estadual Robson Faria, que está há 15 anos no mesmo cargo, presidente da casa. Com a governadora Wilma de Faria que se perpetua no poder, de forma seguida, há 15 anos. Liberdade de escolha e de ir e vir são outras teses da democracia que os partidos neoliberais e a grande imprensa tanto pregam, mas que não são cumpridos, nem denunciados. 

Quando Dom Pedro I gritou a independência, talvez ele tenha imaginado um país prospero, porém a abolição dos escravos só veio em 1888, então não se engane. O grito de independência não foi para libertar um povo, e sim, como acontece hoje, para esfriar os ânimos dos seus correligionários. Como diz um celebre samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira, Cem anos de liberdade, realidade e ilusão, “Hoje dentro da realidade, onde está à liberdade, onde está que ninguém viu”. 

“SOU BRASILEIRO, SOU PATRIOTA, MAS EU NÃO SOU IDIOTA” 

Em sete de setembro de 2009, um grupo de 150 estudantes, em Brasília, fizeram manifestações e gritaram sábias palavras como as do subtítulo. Porque no Brasil se criou uma cultura de que não somos patriotas. E vendo Brasil e Argentina, na TV, quem estava torcendo pela Argentina foi chamado de antipatriota. Sempre pensei que ser patriota é muito mais que torcer pela seleção ou para nossos atletas nas olimpíadas. Creio que ser patriota não é morrer pela pátria e viver sem razão, como cantou Geraldo Vandré, em 1968. A máxima de ser patriota é defender que as nossas riquezas fiquem para o nosso povo. Um exemplo mínimo é a produção do Melão, do RN, na qual 90% da safra são exportadas, deixando para os potiguares os outros 10%, das quais 5% estão podres. Patriota não é desfilar em sete de setembro e aplaudir autoridade que está na sombra do palanque, enquanto os que fazem esse país queimam ao sol. E ser patriota, não é aplaudir militares que mataram e aterrorizaram nosso país durante 20 anos. Certo que muitos a desfilar não o fizeram, mas herdam a nossa antipatia. 

E não saber cantar o hino nacional, como diz alguns jornalistas ignorantes, não é falta de patriotismo ou burrice. É falta de investimento na educação dos governos que os avestruzes defendem. Em Artigo a revista Carta Capital, Luiz Gonzaga Belluzo, economista e presidente do Palmeiras diz claramente:

“[...] espírito de classe da maioria da imprensa brasileira. Não se acomoda na sua militância a favor de privilégios para os mais ricos [...] E, como todos sabem, não é o partido do povo brasileiro. Ela não toma partido a favor de quaisquer projetos que beneficiem as maiorias, as multidões. Seus olhos estão permanentemente voltados para os privilegiados”. 

Não é você que é antipatriota. É o governo. É o presidente. É a prefeita. São os deputados. Os vereadores fanfarrões. Você não saber canta o hino nacional é culpa deles que junto com o presidente destinam 10 bilhões de dólares para o FMI, que explora esse país há mais de 50 anos. Em vez de investir na educação, saúde e moradia. Segurança. Geração de emprego. 

Patriotismo é lutar pela melhoria do seu povo e não pela melhora do saldo dos cofres dos Estados Unidos e Europa. Patriotismo é lutar para o irmão não morrer de fome, e não enriquecer o banqueiro e dono de multinacional. 

Os escândalos políticos demonstram a liberdade nesse país. Enquanto um desempregado, pai de família rouba uma lata de leite para alimentar sua filha e é condenado a três anos de prisão, um senador, deputado, vereador, com a maldita imunidade parlamentar, é absolvido dos roubos que comentem, em cifras 200 vezes maior. Se o trabalhador falta ao trabalho, é descontado no seu salário, quando não é demitido. Na última sexta, 04.09, o Congresso Nacional perdoou 85% das faltas ao trabalho dos Deputados e Senadores. Você é independente? 

INDEPENDÊNCIA , MORTE E MERDA 

De cada dez brasileiros um não sabe ler e escrever. Parece pouco. Mas multiplique esse valor por 180 milhões de habitantes. Dados do IBGE de 2000 revelam que 30,5% da população são analfabetos funcionais. Aqueles que só escrevem o nome e bilhetes simples, mas não entendem o que leem. No Brasil, 53 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, com aproximadamente, 30 dólares por mês. Vito Ginnotti, em seu livro, Muralhas da Linguagem [2004], alerta e indaga: 

“Esses 53 milhões não são os únicos candidatos naturais ao analfabetismo de fato. Há outra faixa que lhes fica bem próxima. São os 85 milhões de brasileiros e brasileiras que vivem, de acordo com levantamento do IPEA, de 1999, com até dois salários mínimos. Alguém acredita que quem tenta sobreviver com até dois salários mínimos entrou alguma vez numa biblioteca, livraria, cinema, teatro ou algo parecido?”. 

No ano de 2002, o IBGE concluiu que 81% dos brasileiros não terminaram o Ensino Médio, o segundo grau como é mais popular. Ou seja, cerca de 145 milhões de pessoas. Então, em 7 de setembro nós não temos o que comemorar. Deveríamos entra em luto, ou em depressão profunda. Pois como um país gasta 4 bilhões de dólares num helicóptero, enquanto seus filhos pedem dinheiro nos sinais, passam fome e morrem de frio embaixo de marquises de lojas luxuosas? 

A questão não é independência ou morte. É morte para você trabalhador, independência para a minoria rica, poderosa e que vive nas amarras do governo. E merda para o restante da população, analfabeta e funcionais, que não cantam o hino nacional e que morre de fome, de frio e que de vez em sempre acham uma bala perdida. 

“PAZ NO FUTURO E GLÓRIA NO PASSADO?” 

Quando Dom Pedro I gritou a independência do Brasil com apenas cinco testemunhas, ele não libertou um país. Libertou os ricos da exploração portuguesa, pois os trabalhadores continuam sendo explorados até hoje e cada vez mais, vivendo uma das maiores cargas de trabalho do mundo. Além de pagar mais imposto que qualquer outro país na face da terra. 

Como diz um rock and roll, dos anos de 1980, do RPM: “O caso Sudam, Maluf, Lalau, Barbalho, Sarney, e quem paga o jornal? É a propaganda, pois nesse país é o dinheiro que manda…”. Não há muito a comentar, não é? 

Por fim, façamos couro para outro rock and roll de 1980, da Legião Urbana.

Que país é esse? É a… Você sabe o resto. Cante.


A Cultura do LIXO

setembro 8, 2009

As notícias que a imprensa publica que não mudam sua vida

[Bruno Rebouças, jornalista e editor www.foque.com.br]

Você abre o jornal e vê uma reportagem de página inteira. Na foto um homem desconhecido. A manchete estampada é: ‘o homem que faz a cabeça dos políticos’. Você acha que é algo sério, e quando começa a ler as oito primeiras linhas vê que o homem da foto é o cabeleireiro oficial dos políticos do RN. Aí você se pergunta: e daí? Pode até pensar que o jornal não encontrou nada melhor para fazer, ou que faltou assunto para preencher o jornal. Mas a realidade é outra. Existe uma intenção. Ou você acha que Natal não tem problemas suficientes para serem relatados do que o cabeleireiro de Vilma, Garibaldi, Agripino e Rosalba? Claro que há. No mesmo dia, 7 de agosto, os servidores do INSS estavam em greve de fome há mais ou menos 20 dias e não ganharam nenhuma nota relatando a situação. A notícia, ‘relevante’ sobre o cabeleireiro, saiu no Jornal de Hoje, em Natal-RN.

Mais recente, em sites nacionais, notícias do tipo: ‘Madona passa mal em ensaio para show’; ou em jornais locais, como o Diário de Natal: ‘casal global termina namoro’, são tão sem nexo quanto à primeira. A grande imprensa e os defensores da mesma acreditam que essa ‘viadagem’ interessa aos leitores. Não interessa. Por mais que não pareça, os leitores querem informações diversas e ficar informados, por exemplo, da situação atual da saúde no seu estado e no país. Dos índices educacionais e da solução para resolvê-los. Não querem saber quem está transando com quem. Apesar de que isso interessa a muita gente.

O fato é que a grande imprensa não faz nada por acaso, ou por coincidência. Novelas ganharam força na ditadura militar para anestesiar a população. O futebol todas as quartas e domingos também. Nada contra novela e futebol. Novela não assisto mais, pois já assisti muito. E futebol, jogo e assisto; vejo compacto e tudo mais. Onde quero chegar? Como diz um samba de Leci Brandão, muito famoso, Zé do Caroço, “A televisão brasileira, destrói a gente com a sua novela”. Novelas que só entretem. Não educam, não tem viés político. Esse viés não é para falar de política. É para mostrar uma visão crítica das coisas, da realidade. Uma visão que faça os leitores, telespectadores pensarem e não querer que eles engula, já mastigado o que lhe é oferecido.

O globo.com estampa na sua capa que a Moss está lançando um perfume mais cheiroso. Sim, e daí? Eu não posso comprar esse perfume, e nem você. Mas isso cria uma mentalidade consumista e fútil nas pessoas, pois se a Ivete Sangalo usa, ‘eu quero usar’. É o que acontece com propagandas de cigarro e cerveja. O cara fuma e bebe, mas ao lado dele está uma mulher gostosona produzida em  sala de cirurgia. Por mais que você ache exagero, isso mexe com o imaginário dos adolescentes, principalmente, e dos adultos. Se o cara fuma e bebe, tem cavalos que custam milhões, visitam paisagens maravilhosas ao lado de mulheres perfeitas, eu também quero. E se eu não posso comprar aquilo, qual é a saída? Trabalhar? Sim, para quem tem uma estrutura familiar por trás. A segunda opção, para quem não tem estudo, comida, mas tem uma televisão em casa, é roubar. Então a criminalidade é gerada, não somente, pelo instinto malvado de trombadinhas. E sim, por uma condição social ou pela falta dela. Não estou defendendo bandido, apenas, digo: tudo que acontece no mundo tem a influência da imprensa.

A imprensa manipula até a hora do telejornal, dos jogos de futebol. E a publicidade é um cadaver que lhe sorri, como diz sabiamente o título do livro de Oliveiro Toscani.

A TEORIA DO ESPELHO

A mais velha e mais conhecida das teorias jornalistícas é a teoria do espelho. Basicamente ela diz que as notícias são o espelho da realidade. Logo que a estudamos na universidade, nos dizem que ela está ultrapassada. Porque será? Porque são os donos dos veículos que decidem o que é realidade, o que é mentira e o que é de interesse público. Não é de nosso interesse se Angélica quebrou o dedo ou se Luciano Luck faz o jantar na casa dele. Ou ainda que um brasileiro pega a Madona. Ou se Fábio Faria, deputado federal, que não consegue formular duas frases corretas, está comendo outra gostosa. Nós queremos saber, ou deveríamos querer, sobre o dinheiro público gasto em passagens aéreas que o deputado metido a galã deu para os globais embelezar seu camarote no carnatal.

A população deve saber como anda os acordos escusos para campanha de 2010. Onde inimigo de dois ou quatro anos atrás, estão se abraçando e dando beijos da morte uns nos outros. A população deve ter um pronunciamento da prefeita Micarla [no caso de Natal] e de todos os seus aliados sobre a segurança pública da capital potiguar. E não uma omissão descarada e não relatada pela grande imprensa, no maior modelo avestruz.

A CULPA TAMBÉM É SUA

A imprensa manipula tudo. Me lembro de uma história de Assis Chateaubriand, no livro Chatô – o rei do Brasil. Em sua rivalidade histórica com a família Matarazzo, durante a segunda guerra mundial, o Associados publicaram em seus jornais a morte de um membro da família Matarazzo, lá na Ítalia. A família ficou em luto total. A guerra acabou e o ente querido, tido como morto, bateu na porta da mansão dos Matarazzos em São Paulo. O patriarca que atendeu a porta, caiu para trás desmaiado.

Outra história de Chatô. Revoltado com o dono do jornal no qual trabalhava antes de virar um magnata da imprensa, Chateaubriand recebeu a tarefa de fazer uma reportagem sobre a semana santa. Antes de sair para as entrevistas chegou para o chefe de redação e perguntou: ‘É para falar bem ou mal de Jesus?’. Logo, não creia que tudo é coincidência. Quando se coloca uma notícia fútil nas páginas dos jornais existe um interesse por trás disso e não falta de assunto para abordar.

Porém, a culpa não é só da imprensa. Se os jornais expirram sangue é porque há um interesse dos leitores. Se a Tevê aborda mortes ao vivo, em imagens inéditas a fim de ganhar audiência, a culpa também é do telespectador. A mídia não é boba. Ela aproveita toda a brecha que lhe é dada. Se mulheres são símbolos sexuais, e seus corpos são explorados para vender revistas e dar audiência, a culpa é de todos, inclusive das mulheres que se submetem a isso.

Por fim, a culpa não é só de quem produz, mas de quem compra e de quem vende também.


‘Quem está na linha é Deus’

setembro 1, 2009

Bruno Rebouças, jornalista.

Dizer que Raul Seixas é o maluco beleza é um clichê tachado e envelhecido. Uma mesmice que Raul odiava. Justificando que o sonho do careta é a realidade do maluco. Há vinte um anos morreu a criatividade, a inovação. Não somente um homem chamado Raul Santos Seixas, nascido em Salvador, aos 28 de junho de 1945. Diferentemente dos arranjos de duas notas da maioria dos músicos baianos, Raul inovou a música brasileira.

Formado em Psicologia, queria ser literário, mas não pôde. Criticou como poucos a sociedade brasileira e suas futilidades. Criticou a bossa nova, da qual nunca foi bem-vindo e muitos menos adepto. Morreu dentro de um apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar. E ela chegou, em 21 de agosto de 1989. Não votou para presidente, mas votar pra presidente é um quesito mínimo numa democracia.

Raul, com certeza, foi se encontrar com os moços dos discos voadores, que tanto deixaram ele na terra, enquanto, Raul, sabia das estrelas que haviam pelo espaço.

Raul se foi há 21 anos, e eu tenho dois a mais que isso. Não vi. Mas ouço. E ouço algo encantador. Nada de letras monossilábicas do forró, ou do axé baiano. Ouço letras sociais, críticas e reveladoras. Letras engraçadas, como as que compõem o título. Deus ligando para a terra e perguntando onde errou. A canção se chama DDI [Discagem direta interestelar]. Raul diz por Deus:

Alô, aqui é do céu. Quem tá na linha é Deus. Tô vendo tudo esquisito O que que há com vocês? [...] o diabo diz que vai baixar de uma vez por aí. Eu fiz vocês como eu, imagem e perfeição. E vocês anarquizando a minha reputação. Não é só novena, terço e oração [...].

O melhor disso tudo é que a razão daquele que é, dizem, louco é muito clara. Os que creem em Deus o interpretam como alguém bondoso com eles, e maléfico com os que não creem. Logo, não anarquizem Deus.

DDI foi censurada, mas em sites com letras de músicas é possível encontrar o trecho: convidado a sair. Parece que Raul fez a canção para os escândalos da política brasileira atual. Deus declara: Eu não compreendo tanta reclamação, se dei igual pra todo mundo, tem gente aí metendo a mão…”. O trecho a seguir aborda a destruição da terra e do espaço. Tão acabando com a Terra… que era somente sua. Agora já tão querendo se mudar pra lua [...].

Para Raul a mesmice é o erro dos normais. Frases simples, ditas aos acordes da guitarra do astro, amigo de composição do outrora excelente Paulo Coelho, que virou um autor meia boca e vende milhões de livros para leitores meia boca. Desculpe, mas é o que eu acho. Paulo Coelho se considera, no mais puro equívoco, o maior intelectual da nossa história.

Voltando a Raul. O astro era contra a mesmice, e avisa claramente nessa frase, marcante:

Eu não sou louco, é o mundo que não entende minha lucidez

Personalidade forte, Seixas foi preso e torturado em 1973, já na parceria com Coelho. Exilou-se nos Estados Unidos, país da qual era extremamente fã. Nesse mesmo ano compôs Ouro de Tolo, canção autobiográfica e que criticava a ditadura militar e o seu milagre econômico. O ouro de tolo é considerado o maior sucesso de Raul Seixas. Nessa canção a futilidade da vida é posta a prova, novamente, e Raul dá um tapa na cara da sociedade carioca e brasileira quando diz:

é você olhar no espelho, se sentir um grandessíssimo idiota. Saber que é humano ridículo, limitado, que só usa dez por cento, de sua cabeça animal… E você ainda acredita, que é um doutor, padre ou policial; que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social….

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Não deixa de ser.

Compôs tantas músicas que se fosse citá-las não caberia nessa página. Raul compôs, estima-se, mais de 260 canções em inglês e portugues, divididas em 21 álbuns. Músicas de grande sucesso, que para os fãs não precisam ser nomeadas. Admiro muito a letra de S.O.S, que fala da falta de pensamento e visão de uma sociedade que não tem mais tempo para pensar.

Hoje é domingo, missa e praia, céu de anil.

Não existe mais clichê que domingo, segundo Raulzito.

Eu sou egoísta, além de ser divertida, é irônica e, acima de tudo, verdadeira. “Eu sou estrela no abismo do espaço. O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço. Onde eu tô não há bicho-papão. Eu vou sempre avante no nada infinito, flamejando meu rock, o meu grito. Minha espada é a guitarra na mão.

Outra música de Raul censurada pela ditadura militar foi descoberta pelo amigo e produtor Marco Mazzol, que gravou a original com Raul. A música foi regravada com a voz de Raul e novos arranjos musicais, graças a tecnologia [ver aqui]. Mazzola declarou que Raul era um careta nato. Falava inglês fluentemente. Mas o astro tinha a necessidade de ser diferente, de mudar. Necessidade de criar a tão sonhada Sociedade Alternativa. Mudar a mesmice da vida, da sociedade, dos pensamentos. Necessidade de tentar achar resposta para tudo. Foi sobre isso que falou em sua carreira. Ele pensava numa mudança de postura.

Em Eu também vou reclamar, ele aborda tudo já dito nesse texto, principalmente a ociosidade e reclamação da classe média, dos filhos da burguesia. Retrata ainda a falta de opção nos jornais, na televisão e suas ninharias.

[...] Tô trancado aqui no quarto, de pijama, porque tem visita estranha na sala. Aí eu pego e passo a vista no jornal… Ligo o rádio e ouço um chato que me grita nos ouvidos: Pare o mundo, que eu quero descer. Falam em nuvens passageiras, mandam ver qualquer besteira e eu não tenho nada prá escolher… Ao meu lado um dicionário, cheio de palavras que eu sei que nunca vou usar.

Considero Raul o melhor e maior músico e compositor desse país. Pela originalidade, pela crítica, coragem. Pela lucidez exagerada que nós, normais, não conseguimos enxergar. Raul compôs músicas nas décadas de 1960, 1970 e 1980, mas todas elas serviriam muito bem para o nosso momento atual. Tanto na política, nos escândalos, na falta de identidade de uma sociedade e sua futilidade marcante. Quanto na falta de inteligência e sensibilidade de homens e mulheres que regem esse país. Nesse momento, mais que em qualquer outro, devemos dizer: parem o mundo que eu quero descer.

Raul deixou o seu legado, que não pode ser esquecido. Nosso dever, como fãs, jornalistas, historiadores, é manter a memória desse gênio viva. Raul morreu, mas fica seus pensamentos e composições. Como ele mesmo disse:

Ninguém morre, as pessoas despertam do sonho da vida”.


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