Rio 2016: farra de verba pública

Outubro 10, 2009

[Bruno Rebouças, jornalista

TV Globo e Record transmitiram ao vivo a escolha da sede das Olimpíadas de 2016 de forma integral. Muitos comentários, entusiasmo e muita torcida. O Brasil fez uma apresentação emocionante, e tinha que ser forte para não se emocionar. No fim venceu o Brasil e a América do Sul que nunca foi sede dos jogos e por isso leva essa. Como desvantagem, Madri teve Londres 2012, assim como Tóquio tinha Pequim [2008] no mesmo continente. No Rio foi feriado facultativo, não teve aula em escolas públicas. No restante do Brasil a expectativa. Nos blogs muitos jornalistas prós e outros contras a candidatura do Rio. Fico com os contras e começo a dizer por que. Primeiro, pela farra de dinheiro que será gritante para a realização dos jogos. Segundo, não aceito o argumento de que a estrutura fica. Fica para quem? Ninguém. O mesmo argumento foi usado para o Panamericano de 2007 e, hoje, só temos notícias da sucata que virou a Vila Olímpica, após os jogos. “O tal “legado”, além de uma espetacular agressão à nossa capacidade de raciocinar é uma tentativa de piada mal acabada”, disse José Cruz em seu blog na UOL.

Não sou dos que acham que o Brasil não tem condições de fazer uma Copa ou Olimpíada. Creio que capacidade há. Dinheiro, se não tiver tira da saúde, educação, até da mãe, isso não é problema. Não creio na boa vontade dos governantes. Terceiro, os gastos são enormes e não temos nenhuma estrutura pronta, diferente de Madri que tem 80% de tudo construído e Chicago que já tem o estádio Olímpico. Não adianta me chamar de antipatriota. É questão de olhar crítico. Não fiquei triste com a escolha do Rio, só acho, que nós como imprensa temos um papel enorme a cumprir até 2016. O papel social de nossa profissão jornalística, fiscalizar. A começar pelo gasto com o projeto que chegou a R$ 100 milhões. As obras do Rio 2016 estão orçadas em R$ 8 bilhões. Sendo que a Copa de 2014 está valendo, por baixo, R$ 55 bilhões. Em dois anos o Brasil investirá uma quantia que nunca investiu na educação e saúde.

O quarto motivo: Um país que não investe em esporte olímpico não poderia sediar os jogos. Somos os campeões dos bronzes e pratas. Em toda nossa história vencemos miseras 16 medalhas de ouro, em sua maioria, em esportes de classe média e alta, como vôlei, vela, natação e hipismo. Desde 1896 ganhamos 76 medalhas no total. Sendo 38 de bronze [nosso forte], 22 de prata e 16 de ouro. Os Estados Unidos venceram somente de ouro, 2188 medalhas. E não se trata de país rico, trata-se de investimentos no esporte como inclusão social e desenvolvimento humanístico. Um exemplo é Cuba, que trata o esporte como um gestor de educação. Até a olimpíada de 2008, Cuba era o país com mais medalhas em jogos olímpicos, por habitante do mundo. A ilha é um país pobre.

O Rio venceu e agora, mais que antes temos que cobrar a responsabilidade do governo em formar e preparar nossos atletas. Se o Rio perdesse, eu continuaria a cobrar isso dos agentes do poder, como fiz em 2008 com o texto: ‘Subdesenvolvimento Olímpico’ [procurar em: mediaalternativa.wordpress.com]. Não podemos pensar em olimpíada em quatro e quatro anos. E agora que somos sede, não podemos pensar nos jogos só daqui a sete anos, como diz o slogan do Comitê Olímpico para o país sede vencedor [see you here in seven years – ‘Vejo você aqui em sete anos’]. “A candidatura vitoriosa tem projetos de concretos. Mas não tem um projeto concreto para a promoção e valorização dos jovens atletas”, [blogdocruz.blog.uol.com.br].

Por esses motivos e outros sou contra a tal olimpíada. Mas torço para que haja vergonha na cara dos políticos e que se faça o projeto com seriedade, e sejam cumpridas todas as promessas feitas, sexta [02.10], ‘investiremos na juventude’. Denunciaremos qualquer omissão.


Nunca na história desse mundo…

Outubro 1, 2009

Estudo do Programa Mundial de Alimentação da Organização das Nações Unidas (PMA) revela que 87 milhões de habitantes passaram a sofrer de fome, em 2009

[Bruno Rebouças, jornalista

 

Antes do mundo entrar em recessão, o homem nunca havia produzido tanta comida, carro, construção imobiliária e tantos outros produtos. Com a recessão, que assola grandes economias, mais miseráveis apareceram no mundo. No Brasil, o governo investe pesado na maior compra de votos a céu aberto da história, as bolsas assistencialistas. Bolsas que, realmente, ajudam famílias, porém, não formam novas mentes. Trotsky já havia dito que o Estado se resume na força. As bolsas assistencialistas não deixam de ser a força do Estado perante a população, refém ao presidente Lula e ao seu pseudo-governo dos trabalhadores, como bem disse, Manoel Moura Filho, do INSS-RN, que estava em greve de fome há 37 dias por ter tido, assim como todos os servidores do INSS, 84,32% do seu salário confiscado pelo governo.

No ano de 2009, uma pesquisa publicada em 16 de setembro, pelo Programa Mundial de Alimentação da ONU, revelou ao mundo um número assombroso. Apenas neste ano, 87 milhões de pessoas pelo mundo todo entraram na zona dos famintos, aqueles que não tem o que comer todos os dias; os que vivem abaixo da linha da miséria. Muitos que perderam seus empregos devido a mais uma crise do capitalismo, que gera muita riqueza... Para seus donos.

A pesquisa revela que no mundo atual, nunca se teve tanta gente passando fome. Estima-se que esse número é de 1,02 bilhão de habitantes. É quase o mesmo número da China, o país mais populoso da Terra. O estudo ainda diz que “em muitos países em desenvolvimento, os pobres não podem se dar ao luxo de comprar comida. Ao mesmo tempo, os infortúnios econômicos significam que muitos países ricos têm cortado o financiamento à assistência alimentar. É uma receita para o desastre”, diz o estudo do PMA, que ainda revela que a ajuda dos países ricos é a mais baixa em 20 anos.

O orçamento da PMA corresponde a 6,7 bilhões de dólares para combater a fome. Porém, em 2009, eles só receberam 30% desse valor [cerca de 1,8 bilhão], que só dá para tentar ajudar 108 milhões de habitantes. Ou seja, um bilhão, seiscentos e noventa e dois milhões de pessoas continuarão a passar fome. Mesmo que o Programa Mundial de Alimentação, recebesse os 6 bilhões anuais, não seriam suficientes para alimentar os cerca de 1 bilhão de famintos. Seria necessários mais 3 bilhões de dólares, somando 9 bilhões. Vale ressaltar que essa quantia não acabaria com a fome no mundo, mas sim, proporcionaria uma alimentação diária, apenas. Um dos entrevistados na pesquisa, um geólogo de 34 anos, contou que na República Democrática do Congo (ex-Zaire), a fome impõe escolhas radicais para as famílias. “Em algumas famílias, se o pai e dois filhos comem hoje, amanhã ficam sem se alimentar para dar lugar à mulher e às outras crianças. Não existe comida para todos”, alertou.

Por fim, enquanto famílias pelo mundo afora fazem rodízio para quem come, Obama investe, em empresas falidas, 700 bilhões de dólares e Lula empresta 10 bilhões ao FMI. O Brasil gastou 3 bilhões de reais nos jogos Panamericanos. Só para a candidatura do Rio, para sede das Olimpíadas de 2016, já foram gastos 180 milhões. Ou seja, 1 milhão para cada habitante do Brasil, até 2002. Se for escolhida sede de 2016, em 2 de outubro, o orçamento será de 38 bilhões de dólares. Para 2014, só no projeto de Natal, será gasto, com toda a estrutura, 1,2 bilhão de reais. Dinheiro mais que suficiente para exterminar a fome no mundo.


Senadores gastam mais de R$ 330 mil reais com gasolina

Setembro 28, 2009

De junho a agosto, senadores consumiram 18 anos de combustível

[Bruno Rebouças, jornalista 

 

Quando o time perde, torcedores invadem o gramado, vestiário. Ameaçam famílias e matam pessoas que torcem por outra equipe. Quando o assunto é político, 98% da população brasileira não se rebelam com tanto vigor. Sarney decretou mais de 600 atos secretos e nada aconteceu. Lula faz suas cagadas e alguns criticam. Como tem a imprensa em suas mãos os políticos não sofrem pressão da maior parte da imprensa. Logo, não são pressionados de maneira efetiva por parte da população, que está mais preocupada em chegar em casa com segurança, ou em o que dar para o filho comer no outro dia. Justo, já que vivemos num país miserável, onde 54 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza; fora a taxa gigante de analfabetos.

O fato é que, se fossemos um povo mais politizado todas as falcatruas dos políticos, os 512 picaretas da Câmara e do Senado que nos enganam e levam nosso dinheiro para gastar ao bel prazer deles mesmos, seriam expulsos do parlamento. Como torcedores da Portuguesa fizeram, quando invadiram os vestiários armados e ameaçaram jogadores, o mesmo deveria ser feito com senadores e deputados quando esses armam seus golpes diante do povo.

O mais novo fato em evidência no Congresso Nacional é o valor da verba indenizatória dos senadores de R$ 15 mil reais. Destaque para o valor pago em gasolina. O novo portal R7 fez uma conta considerando o gasto de gasolina por um taxista em São Paulo, que anda em médio 200 quilometros por dia e gasta para encher o tanque R$ 1.485 por mês. A quantia que os senadores consumiram em apenas três meses seria suficiente [sente para não cair], para esse mesmo taxista andar 18 anos com o tanque cheio.

O portal R7 ainda está disponibilizando dicas para como fiscalizar [clique aqui] os senadores em relação a tal verba indenizatória. O campeão em gasto de gasolina, senador Gilberto Goellner [DEM-MT], queimou 10 vezes mais que um taxista utiliza num mês. A lista é bastante grande. Gilberto Goellner justificou dizendo que utilizou R$ 26 mil reais em combustível em viagens ao interior do Mato Grosso. Vale lembrar que senador, não paga gasolina em Brasília, pois tem um carro oficial a sua disposição com motorista. Esses gastos com gasolina foram feitos nos Estados, onde os senadores foram eleitos.

A maioria dos senadores justificaram da mesma forma que Goellner, declarando viagens pelo interior, audiência pelo estado e mais e mais blablablá. Nenhum deles, porém, declarou que esse valor foi gasto em apenas um posto de gasolina em seus estados. O que demonstra um favorecimento a um único grupo empresarial do setor.

Que o Rio Grande do Norte está em evidência política e prestígio nacional ninguém duvida. Mas é consenso que para conseguir garantias e melhorias para a população do Estado os Senadores e Deputados Federais não agilizam nada. Só conversam com autoridades do governo, quando vão pedir apoio em campanhas e virar sede da Copa.

A evidência desses nossos políticos é tanta que entre os dez senadores que mais gastaram, estão Garibaldi Alves e José Agripino. O senador Garibaldi, motivo de zoação pela imprensa, quando era presidente do senado, gastou R$ 10.752,06 com gasolina no RN, sempre no mesmo posto: Zumba Petróleo LTDA. Agripino gastou R$ 8.964,68, também, sempre no mesmo posto: Flor & Cia LTDA.

É revoltante essa situação, ou até mesmo engraçado. É claro que a graça está no humor negro. Porque é fato que enquanto os políticos nos zoam, crianças não são atendidas no Walfredo Gurgel que terá sua pediatria fechada, de forma arbitrária pelo governo do estado, assim como o Hospital Santa Catarina. Enquanto os senadores queimam uma quantidade de combustível absurda, pais de famílias morrem quando voltam do trabalho por falta de segurança.

A população é esquecida por esses políticos que tanto lutam para ter essas regalias que o Estado lhes dão. Em 2010, eles lembrarão de você, somente. Não esqueçam eles. E dê sua resposta com o seu voto, dizendo não ao projeto político de cada um deles. Governadores, deputados estaduais e federais, senadores e presidente. Que no conjunto da obra só defendem os interesses deles e dos seus currais políticos.

Confira os 10 primeiros colocados:

1. Gilberto Goellner (DEM-MT) – R$ 26.254,68

2. Marconi Perillo (PSDB-GO) – R$ 16.474,31

3. Expedito Júnior (sem partido-RO) – R$ 15.016,00

4. Augusto Botelho (PT-RR) – R$ 13.721,61

5. Mário Couto (PSDB-PA) – R$ 13.581,23

6. Magno Malta (PR-ES) – R$ 13.169,15

7. Mão Santa (sem partido-PI) – R$ 11.117,83

8. Garibaldi Alves (PMDB-RN) – R$ 10.752,06

9. Cícero Lucena (PSDB – PB) – R$ 9.808,15

10. José Agripino (DEM – RN) – R$ 8.964,68


INDEPENDÊNCIA DE QUEM?

Setembro 11, 2009

O Brasil completa 187 anos de independência. Mas de quem é essa independência? Dados do IBGE revelam que 53 milhões de brasileiros ‘livres’ vivem abaixo da linha da pobreza

[Bruno Rebouças, jornalista e editor

 

Sete de setembro de 1822. Dom Pedro I grita às margens do rio Ipiranga a independência do Brasil e liberta o país das amarras de Portugal. Poucos países no mundo não guerrearam para conseguir sua liberdade. O Brasil foi um deles. Posso ser injusto com os negros, escravos, abolicionistas e intelectuais que fizeram pressão para o fato acontecer. Mas é assim que os livros oficiais e a grande imprensa fazem com os nossos heróis. E durante os quase dois séculos da declarada independência, ouvimos a glorificação de um único homem como o responsável pelo livramento de um país explorado. 

Quase dois séculos depois a independência ainda não veio. Votar para presidente é apenas um detalhe numa democracia. Outra coisa que a democracia exige, mas a grande imprensa não divulga, é a troca do poder. A perpetuação do poder pelos políticos sejam vereadores, deputados e presidente é ditadura. Uma coisa aberta, disfarçada, mas é. É assim com os governos de frente popular, como o presidente Lula. É assim com o presidente da Assembléia Legislativa, deputado estadual Robson Faria, que está há 15 anos no mesmo cargo, presidente da casa. Com a governadora Wilma de Faria que se perpetua no poder, de forma seguida, há 15 anos. Liberdade de escolha e de ir e vir são outras teses da democracia que os partidos neoliberais e a grande imprensa tanto pregam, mas que não são cumpridos, nem denunciados. 

Quando Dom Pedro I gritou a independência, talvez ele tenha imaginado um país prospero, porém a abolição dos escravos só veio em 1888, então não se engane. O grito de independência não foi para libertar um povo, e sim, como acontece hoje, para esfriar os ânimos dos seus correligionários. Como diz um celebre samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira, Cem anos de liberdade, realidade e ilusão, “Hoje dentro da realidade, onde está à liberdade, onde está que ninguém viu”. 

“SOU BRASILEIRO, SOU PATRIOTA, MAS EU NÃO SOU IDIOTA” 

Em sete de setembro de 2009, um grupo de 150 estudantes, em Brasília, fizeram manifestações e gritaram sábias palavras como as do subtítulo. Porque no Brasil se criou uma cultura de que não somos patriotas. E vendo Brasil e Argentina, na TV, quem estava torcendo pela Argentina foi chamado de antipatriota. Sempre pensei que ser patriota é muito mais que torcer pela seleção ou para nossos atletas nas olimpíadas. Creio que ser patriota não é morrer pela pátria e viver sem razão, como cantou Geraldo Vandré, em 1968. A máxima de ser patriota é defender que as nossas riquezas fiquem para o nosso povo. Um exemplo mínimo é a produção do Melão, do RN, na qual 90% da safra são exportadas, deixando para os potiguares os outros 10%, das quais 5% estão podres. Patriota não é desfilar em sete de setembro e aplaudir autoridade que está na sombra do palanque, enquanto os que fazem esse país queimam ao sol. E ser patriota, não é aplaudir militares que mataram e aterrorizaram nosso país durante 20 anos. Certo que muitos a desfilar não o fizeram, mas herdam a nossa antipatia. 

E não saber cantar o hino nacional, como diz alguns jornalistas ignorantes, não é falta de patriotismo ou burrice. É falta de investimento na educação dos governos que os avestruzes defendem. Em Artigo a revista Carta Capital, Luiz Gonzaga Belluzo, economista e presidente do Palmeiras diz claramente:

“[...] espírito de classe da maioria da imprensa brasileira. Não se acomoda na sua militância a favor de privilégios para os mais ricos [...] E, como todos sabem, não é o partido do povo brasileiro. Ela não toma partido a favor de quaisquer projetos que beneficiem as maiorias, as multidões. Seus olhos estão permanentemente voltados para os privilegiados”. 

Não é você que é antipatriota. É o governo. É o presidente. É a prefeita. São os deputados. Os vereadores fanfarrões. Você não saber canta o hino nacional é culpa deles que junto com o presidente destinam 10 bilhões de dólares para o FMI, que explora esse país há mais de 50 anos. Em vez de investir na educação, saúde e moradia. Segurança. Geração de emprego. 

Patriotismo é lutar pela melhoria do seu povo e não pela melhora do saldo dos cofres dos Estados Unidos e Europa. Patriotismo é lutar para o irmão não morrer de fome, e não enriquecer o banqueiro e dono de multinacional. 

Os escândalos políticos demonstram a liberdade nesse país. Enquanto um desempregado, pai de família rouba uma lata de leite para alimentar sua filha e é condenado a três anos de prisão, um senador, deputado, vereador, com a maldita imunidade parlamentar, é absolvido dos roubos que comentem, em cifras 200 vezes maior. Se o trabalhador falta ao trabalho, é descontado no seu salário, quando não é demitido. Na última sexta, 04.09, o Congresso Nacional perdoou 85% das faltas ao trabalho dos Deputados e Senadores. Você é independente? 

INDEPENDÊNCIA , MORTE E MERDA 

De cada dez brasileiros um não sabe ler e escrever. Parece pouco. Mas multiplique esse valor por 180 milhões de habitantes. Dados do IBGE de 2000 revelam que 30,5% da população são analfabetos funcionais. Aqueles que só escrevem o nome e bilhetes simples, mas não entendem o que leem. No Brasil, 53 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, com aproximadamente, 30 dólares por mês. Vito Ginnotti, em seu livro, Muralhas da Linguagem [2004], alerta e indaga: 

“Esses 53 milhões não são os únicos candidatos naturais ao analfabetismo de fato. Há outra faixa que lhes fica bem próxima. São os 85 milhões de brasileiros e brasileiras que vivem, de acordo com levantamento do IPEA, de 1999, com até dois salários mínimos. Alguém acredita que quem tenta sobreviver com até dois salários mínimos entrou alguma vez numa biblioteca, livraria, cinema, teatro ou algo parecido?”. 

No ano de 2002, o IBGE concluiu que 81% dos brasileiros não terminaram o Ensino Médio, o segundo grau como é mais popular. Ou seja, cerca de 145 milhões de pessoas. Então, em 7 de setembro nós não temos o que comemorar. Deveríamos entra em luto, ou em depressão profunda. Pois como um país gasta 4 bilhões de dólares num helicóptero, enquanto seus filhos pedem dinheiro nos sinais, passam fome e morrem de frio embaixo de marquises de lojas luxuosas? 

A questão não é independência ou morte. É morte para você trabalhador, independência para a minoria rica, poderosa e que vive nas amarras do governo. E merda para o restante da população, analfabeta e funcionais, que não cantam o hino nacional e que morre de fome, de frio e que de vez em sempre acham uma bala perdida. 

“PAZ NO FUTURO E GLÓRIA NO PASSADO?” 

Quando Dom Pedro I gritou a independência do Brasil com apenas cinco testemunhas, ele não libertou um país. Libertou os ricos da exploração portuguesa, pois os trabalhadores continuam sendo explorados até hoje e cada vez mais, vivendo uma das maiores cargas de trabalho do mundo. Além de pagar mais imposto que qualquer outro país na face da terra. 

Como diz um rock and roll, dos anos de 1980, do RPM: “O caso Sudam, Maluf, Lalau, Barbalho, Sarney, e quem paga o jornal? É a propaganda, pois nesse país é o dinheiro que manda…”. Não há muito a comentar, não é? 

Por fim, façamos couro para outro rock and roll de 1980, da Legião Urbana.

Que país é esse? É a… Você sabe o resto. Cante.


A Cultura do LIXO

Setembro 8, 2009

As notícias que a imprensa publica que não mudam sua vida

[Bruno Rebouças, jornalista e editor www.foque.com.br]

Você abre o jornal e vê uma reportagem de página inteira. Na foto um homem desconhecido. A manchete estampada é: ‘o homem que faz a cabeça dos políticos’. Você acha que é algo sério, e quando começa a ler as oito primeiras linhas vê que o homem da foto é o cabeleireiro oficial dos políticos do RN. Aí você se pergunta: e daí? Pode até pensar que o jornal não encontrou nada melhor para fazer, ou que faltou assunto para preencher o jornal. Mas a realidade é outra. Existe uma intenção. Ou você acha que Natal não tem problemas suficientes para serem relatados do que o cabeleireiro de Vilma, Garibaldi, Agripino e Rosalba? Claro que há. No mesmo dia, 7 de agosto, os servidores do INSS estavam em greve de fome há mais ou menos 20 dias e não ganharam nenhuma nota relatando a situação. A notícia, ‘relevante’ sobre o cabeleireiro, saiu no Jornal de Hoje, em Natal-RN.

Mais recente, em sites nacionais, notícias do tipo: ‘Madona passa mal em ensaio para show’; ou em jornais locais, como o Diário de Natal: ‘casal global termina namoro’, são tão sem nexo quanto à primeira. A grande imprensa e os defensores da mesma acreditam que essa ‘viadagem’ interessa aos leitores. Não interessa. Por mais que não pareça, os leitores querem informações diversas e ficar informados, por exemplo, da situação atual da saúde no seu estado e no país. Dos índices educacionais e da solução para resolvê-los. Não querem saber quem está transando com quem. Apesar de que isso interessa a muita gente.

O fato é que a grande imprensa não faz nada por acaso, ou por coincidência. Novelas ganharam força na ditadura militar para anestesiar a população. O futebol todas as quartas e domingos também. Nada contra novela e futebol. Novela não assisto mais, pois já assisti muito. E futebol, jogo e assisto; vejo compacto e tudo mais. Onde quero chegar? Como diz um samba de Leci Brandão, muito famoso, Zé do Caroço, “A televisão brasileira, destrói a gente com a sua novela”. Novelas que só entretem. Não educam, não tem viés político. Esse viés não é para falar de política. É para mostrar uma visão crítica das coisas, da realidade. Uma visão que faça os leitores, telespectadores pensarem e não querer que eles engula, já mastigado o que lhe é oferecido.

O globo.com estampa na sua capa que a Moss está lançando um perfume mais cheiroso. Sim, e daí? Eu não posso comprar esse perfume, e nem você. Mas isso cria uma mentalidade consumista e fútil nas pessoas, pois se a Ivete Sangalo usa, ‘eu quero usar’. É o que acontece com propagandas de cigarro e cerveja. O cara fuma e bebe, mas ao lado dele está uma mulher gostosona produzida em  sala de cirurgia. Por mais que você ache exagero, isso mexe com o imaginário dos adolescentes, principalmente, e dos adultos. Se o cara fuma e bebe, tem cavalos que custam milhões, visitam paisagens maravilhosas ao lado de mulheres perfeitas, eu também quero. E se eu não posso comprar aquilo, qual é a saída? Trabalhar? Sim, para quem tem uma estrutura familiar por trás. A segunda opção, para quem não tem estudo, comida, mas tem uma televisão em casa, é roubar. Então a criminalidade é gerada, não somente, pelo instinto malvado de trombadinhas. E sim, por uma condição social ou pela falta dela. Não estou defendendo bandido, apenas, digo: tudo que acontece no mundo tem a influência da imprensa.

A imprensa manipula até a hora do telejornal, dos jogos de futebol. E a publicidade é um cadaver que lhe sorri, como diz sabiamente o título do livro de Oliveiro Toscani.

A TEORIA DO ESPELHO

A mais velha e mais conhecida das teorias jornalistícas é a teoria do espelho. Basicamente ela diz que as notícias são o espelho da realidade. Logo que a estudamos na universidade, nos dizem que ela está ultrapassada. Porque será? Porque são os donos dos veículos que decidem o que é realidade, o que é mentira e o que é de interesse público. Não é de nosso interesse se Angélica quebrou o dedo ou se Luciano Luck faz o jantar na casa dele. Ou ainda que um brasileiro pega a Madona. Ou se Fábio Faria, deputado federal, que não consegue formular duas frases corretas, está comendo outra gostosa. Nós queremos saber, ou deveríamos querer, sobre o dinheiro público gasto em passagens aéreas que o deputado metido a galã deu para os globais embelezar seu camarote no carnatal.

A população deve saber como anda os acordos escusos para campanha de 2010. Onde inimigo de dois ou quatro anos atrás, estão se abraçando e dando beijos da morte uns nos outros. A população deve ter um pronunciamento da prefeita Micarla [no caso de Natal] e de todos os seus aliados sobre a segurança pública da capital potiguar. E não uma omissão descarada e não relatada pela grande imprensa, no maior modelo avestruz.

A CULPA TAMBÉM É SUA

A imprensa manipula tudo. Me lembro de uma história de Assis Chateaubriand, no livro Chatô – o rei do Brasil. Em sua rivalidade histórica com a família Matarazzo, durante a segunda guerra mundial, o Associados publicaram em seus jornais a morte de um membro da família Matarazzo, lá na Ítalia. A família ficou em luto total. A guerra acabou e o ente querido, tido como morto, bateu na porta da mansão dos Matarazzos em São Paulo. O patriarca que atendeu a porta, caiu para trás desmaiado.

Outra história de Chatô. Revoltado com o dono do jornal no qual trabalhava antes de virar um magnata da imprensa, Chateaubriand recebeu a tarefa de fazer uma reportagem sobre a semana santa. Antes de sair para as entrevistas chegou para o chefe de redação e perguntou: ‘É para falar bem ou mal de Jesus?’. Logo, não creia que tudo é coincidência. Quando se coloca uma notícia fútil nas páginas dos jornais existe um interesse por trás disso e não falta de assunto para abordar.

Porém, a culpa não é só da imprensa. Se os jornais expirram sangue é porque há um interesse dos leitores. Se a Tevê aborda mortes ao vivo, em imagens inéditas a fim de ganhar audiência, a culpa também é do telespectador. A mídia não é boba. Ela aproveita toda a brecha que lhe é dada. Se mulheres são símbolos sexuais, e seus corpos são explorados para vender revistas e dar audiência, a culpa é de todos, inclusive das mulheres que se submetem a isso.

Por fim, a culpa não é só de quem produz, mas de quem compra e de quem vende também.


‘Quem está na linha é Deus’

Setembro 1, 2009

Bruno Rebouças, jornalista.

Dizer que Raul Seixas é o maluco beleza é um clichê tachado e envelhecido. Uma mesmice que Raul odiava. Justificando que o sonho do careta é a realidade do maluco. Há vinte um anos morreu a criatividade, a inovação. Não somente um homem chamado Raul Santos Seixas, nascido em Salvador, aos 28 de junho de 1945. Diferentemente dos arranjos de duas notas da maioria dos músicos baianos, Raul inovou a música brasileira.

Formado em Psicologia, queria ser literário, mas não pôde. Criticou como poucos a sociedade brasileira e suas futilidades. Criticou a bossa nova, da qual nunca foi bem-vindo e muitos menos adepto. Morreu dentro de um apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar. E ela chegou, em 21 de agosto de 1989. Não votou para presidente, mas votar pra presidente é um quesito mínimo numa democracia.

Raul, com certeza, foi se encontrar com os moços dos discos voadores, que tanto deixaram ele na terra, enquanto, Raul, sabia das estrelas que haviam pelo espaço.

Raul se foi há 21 anos, e eu tenho dois a mais que isso. Não vi. Mas ouço. E ouço algo encantador. Nada de letras monossilábicas do forró, ou do axé baiano. Ouço letras sociais, críticas e reveladoras. Letras engraçadas, como as que compõem o título. Deus ligando para a terra e perguntando onde errou. A canção se chama DDI [Discagem direta interestelar]. Raul diz por Deus:

Alô, aqui é do céu. Quem tá na linha é Deus. Tô vendo tudo esquisito O que que há com vocês? [...] o diabo diz que vai baixar de uma vez por aí. Eu fiz vocês como eu, imagem e perfeição. E vocês anarquizando a minha reputação. Não é só novena, terço e oração [...].

O melhor disso tudo é que a razão daquele que é, dizem, louco é muito clara. Os que creem em Deus o interpretam como alguém bondoso com eles, e maléfico com os que não creem. Logo, não anarquizem Deus.

DDI foi censurada, mas em sites com letras de músicas é possível encontrar o trecho: convidado a sair. Parece que Raul fez a canção para os escândalos da política brasileira atual. Deus declara: Eu não compreendo tanta reclamação, se dei igual pra todo mundo, tem gente aí metendo a mão…”. O trecho a seguir aborda a destruição da terra e do espaço. Tão acabando com a Terra… que era somente sua. Agora já tão querendo se mudar pra lua [...].

Para Raul a mesmice é o erro dos normais. Frases simples, ditas aos acordes da guitarra do astro, amigo de composição do outrora excelente Paulo Coelho, que virou um autor meia boca e vende milhões de livros para leitores meia boca. Desculpe, mas é o que eu acho. Paulo Coelho se considera, no mais puro equívoco, o maior intelectual da nossa história.

Voltando a Raul. O astro era contra a mesmice, e avisa claramente nessa frase, marcante:

Eu não sou louco, é o mundo que não entende minha lucidez

Personalidade forte, Seixas foi preso e torturado em 1973, já na parceria com Coelho. Exilou-se nos Estados Unidos, país da qual era extremamente fã. Nesse mesmo ano compôs Ouro de Tolo, canção autobiográfica e que criticava a ditadura militar e o seu milagre econômico. O ouro de tolo é considerado o maior sucesso de Raul Seixas. Nessa canção a futilidade da vida é posta a prova, novamente, e Raul dá um tapa na cara da sociedade carioca e brasileira quando diz:

é você olhar no espelho, se sentir um grandessíssimo idiota. Saber que é humano ridículo, limitado, que só usa dez por cento, de sua cabeça animal… E você ainda acredita, que é um doutor, padre ou policial; que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social….

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Não deixa de ser.

Compôs tantas músicas que se fosse citá-las não caberia nessa página. Raul compôs, estima-se, mais de 260 canções em inglês e portugues, divididas em 21 álbuns. Músicas de grande sucesso, que para os fãs não precisam ser nomeadas. Admiro muito a letra de S.O.S, que fala da falta de pensamento e visão de uma sociedade que não tem mais tempo para pensar.

Hoje é domingo, missa e praia, céu de anil.

Não existe mais clichê que domingo, segundo Raulzito.

Eu sou egoísta, além de ser divertida, é irônica e, acima de tudo, verdadeira. “Eu sou estrela no abismo do espaço. O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço. Onde eu tô não há bicho-papão. Eu vou sempre avante no nada infinito, flamejando meu rock, o meu grito. Minha espada é a guitarra na mão.

Outra música de Raul censurada pela ditadura militar foi descoberta pelo amigo e produtor Marco Mazzol, que gravou a original com Raul. A música foi regravada com a voz de Raul e novos arranjos musicais, graças a tecnologia [ver aqui]. Mazzola declarou que Raul era um careta nato. Falava inglês fluentemente. Mas o astro tinha a necessidade de ser diferente, de mudar. Necessidade de criar a tão sonhada Sociedade Alternativa. Mudar a mesmice da vida, da sociedade, dos pensamentos. Necessidade de tentar achar resposta para tudo. Foi sobre isso que falou em sua carreira. Ele pensava numa mudança de postura.

Em Eu também vou reclamar, ele aborda tudo já dito nesse texto, principalmente a ociosidade e reclamação da classe média, dos filhos da burguesia. Retrata ainda a falta de opção nos jornais, na televisão e suas ninharias.

[...] Tô trancado aqui no quarto, de pijama, porque tem visita estranha na sala. Aí eu pego e passo a vista no jornal… Ligo o rádio e ouço um chato que me grita nos ouvidos: Pare o mundo, que eu quero descer. Falam em nuvens passageiras, mandam ver qualquer besteira e eu não tenho nada prá escolher… Ao meu lado um dicionário, cheio de palavras que eu sei que nunca vou usar.

Considero Raul o melhor e maior músico e compositor desse país. Pela originalidade, pela crítica, coragem. Pela lucidez exagerada que nós, normais, não conseguimos enxergar. Raul compôs músicas nas décadas de 1960, 1970 e 1980, mas todas elas serviriam muito bem para o nosso momento atual. Tanto na política, nos escândalos, na falta de identidade de uma sociedade e sua futilidade marcante. Quanto na falta de inteligência e sensibilidade de homens e mulheres que regem esse país. Nesse momento, mais que em qualquer outro, devemos dizer: parem o mundo que eu quero descer.

Raul deixou o seu legado, que não pode ser esquecido. Nosso dever, como fãs, jornalistas, historiadores, é manter a memória desse gênio viva. Raul morreu, mas fica seus pensamentos e composições. Como ele mesmo disse:

Ninguém morre, as pessoas despertam do sonho da vida”.


Casos e descasos com a saúde brasileira

Agosto 25, 2009

[Bruno Rebouças, jornalista

Podemos acreditar no que o governo diz?

As notícias são dadas todos os dias. Sempre que os programas de televisão atualizam os dados a preocupação toma conta dos cidadãos. As pessoas andam temerosas, no Rio Grande do Norte, não usamos mascaras, ainda. Embora, volta e meia encontramos pessoas passeando pela cidade com a máscara. O governo diz que não tem necessidade, mas como acreditar em pessoas que tratam a saúde e a educação brasileira com tanto desprezo? Talvez, devêssemos rezar como fazem os mais religiosos, para o vírus Influenza A não chegar a nossa casa e não atingir nenhum dos nossos.

Osmar Terra, secretário de saúde do Rio Grande do Sul, afirma que seu estado deve ter 12 mil casos da nova gripe. No estado de São Paulo, três das maiores Universidade cancelaram o início das aulas no segundo semestre. Universidade de São Paulo [USP], Universidade Estadual de Campinas [UNICAMP] e a Universidade Estadual Paulista [Unesp] resolveram seguir a orientação da Secretaria Estadual de Saúde do estado de São Paulo.

No Nordeste, a primeira vítima da gripe A foi em João Pessoa. O estudante de enfermagem Severino Galdino, 31, morreu e seu corpo não foi velado por medidas de segurança. Morreram outras pessoas, uma em Alagoas, outra em Salvador. Consta-se que todos por falta de atendimento, ou por negligencia mesmo. No RN, o último dado [27.07], afirmava que 23 casos haviam sido confirmados. Em 24 de agosto a secretaria de saúde confirmou a primeira morte, ocorrida em 15 de agosto.

No Brasil, os números dobraram em nove dias. Até o dia 31 de julho, eram 96 mortes devido a gripe. Em 11.08, o Ministério da Saúde divulgou que até o dia 9 de agosto, morreram 192 pessoas pela gripe. As secretarias estaduais de saúde, juntas, dizem que são 220 mortes. Em quem acreditar? José Gomes Temporão, ministro da Saúde, declarou que há uma defasagem entre as informações dada pelo ministério e pelas secretarias estaduais. Os casos chegam a 552 confirmados, até o dia 11 de agosto.

O ministro da saúde divulgou esses dados, na tribuna da Câmara dos Deputados, e foi duramente criticado pelos deputados, pois o Ministério da Saúde utilizou, apenas, 11 milhões dos 102 milhões destinados ao combate à doença. Isso o ministro Temporão não justificou.

Das 192 mortes, 28 foram de gestantes. Cento e sete contraíram a doença, mas foram curadas. O ministro garantiu que não faltará o medicamento, Tamiflu, para o tratamento da gripe A. Este mês, de agosto, serão distribuídos, 800 mil kits de tratamento para os estados e municípios do Brasil.

O último relatório da Organização Mundial de Saúde [OMS], divulgado dia 6 de julho, relata que no mundo inteiro foram registrados 94.512 casos da gripe A [H1N1], tendo 429 óbitos. Porém, não entram nas estatísticas as pessoas contaminadas que não apresentam sintomas ou as que têm apenas sintomas leves. Alguns especialistas criticam a OMS e garantem que esses dados não são tão confiáveis. Tini Garke, especialista do Imperial College de Londres, contesta os números da OMS. “As estatísticas sobre o número de casos e de óbitos ligados à gripe suína não são confiáveis, especialmente porque a maior parte das pessoas contaminadas não são computadas”, declara.

ENQUANTO ISSO NO RN

Aqui no Rio Grande do Norte, foi confirmada a primeira morte, ocorrida dia 15 de agosto. Conta-se que 23 casos foram confirmados [até 11.08]. Mas nossa equipe foi informada que alguns hospitais particulares não estão divulgando o verdadeiro número de casos, a pedido dos próprios pacientes.

Em 27 de julho aconteceu uma palestra no Instituto Maria Auxiliadora, com os diretores de escolas privadas de Natal. A Secretaria Estadual de Saúde [Sesap] esclareceu que essas palestras fazem parte das ações de prevenção e esclarecimento sobre a gripe A. As mesmas informações serão passadas as Secretarias Estadual e Municipal de educação, para esclarecer e prevenir os alunos da educação pública também.

Por fim, não só no Brasil, mas no mundo inteiro existe uma tentativa, talvez, de manipular números para não causar o caos. Porém, essa prática é totalmente perigosa, pois a maioria da população fica no meio termo e não encontra explicações suficientes.


O comunismo pode ter acabado, mas os comunistas vivem

Julho 28, 2009

[Por Bruno Rebouças, jornalista

Em 2007, fez 90 anos da revolução russa. Na praça vermelha, em Moscou, 150 mil pessoas se reuniram para comemorar a data. A Rússia foi transformada em União Soviética, em 1922, e o socialismo vingou até 1992. Desde lá, todas as pessoas, diziam que o comunismo nunca mais se faria na terra. Cuba permanece socialista até hoje, com ou sem Fidel. A China também, embora a forma econômica na terra dos dragões seja diferente. Uma economia mista, com forte presença do estado. Ambos já começam a abrir mais suas políticas. Cuba ainda vive o esmagador bloqueio econômico, mas tem índices sociais de fazer inveja a qualquer país desenvolvido. E a China se desenvolve e cresce mais que qualquer outro país no planeta.

Mais recentemente, saiu uma pesquisa publicada no jornal alemão, Der Spiegel, que 57% dos alemães orientais (os comunistas) preferiam viver na antiga república, a hoje em dia na Alemanha Unificada. A pesquisa revela vários aspectos, mas o principal, o que a maioria dos entrevistados disseram, foi em relação a solidariedade, igualdade e justiça que na atual Alemanha, ‘unificada’ e capitalista não existem. “No que me diz respeito, o que tivemos naquela época foi menos ditatorial do que temos hoje. Quero ver salários iguais e pensões iguais para os moradores da antiga
Alemanha Oriental”, relatou Schön um artesão que não revelou seu segundo nome.

O mundo vive uma crise econômico ferrenha, que não atinge tão em cheio o Brasil, devido a não termos uma grande economia mundial, de certa forma, sorte nossa. Com essa crise, alguns americanos, mais conservadores, já temem, mais uma vez, uma ascensão comunista pelo mundo, pois a falta de investimentos de países desenvolvidos gera a cada dia o desemprego. A alternativa para as injustiças sociais, sempre foi o socialismo, que visa o pleno emprego a todos, além dos cinco serviços básicos para o homem, viver e não sobreviver, como no Brasil. São elas educação, saúde, moradia, segurança e alimentação.

“Sob a perspectiva atual, acredito que fomos retirados do paraíso quando o muro caiu”. Além da pesquisa boca a boca, os entrevistados responderam perguntas por cartas, e essa citação é de uma delas. A pesquisa revelou, ainda, que os cidadãos da antiga Alemanha Oriental são injustiçados em relação aos antigos alemães ocidentais [capitalistas]. Os ‘ex-comunistas’, recebem piores salários e não tem tanta liberdade, quanto os capitalistas dizem que oferecem. “A RDA [República Democrática Alemã] tinha, na maior parte, pontos positivos. A vida lá era mais feliz e melhor do que na Alemanha reunificada de hoje”, diz outro cidadão, numa carta.

O fato é que o mundo acha que os comunistas são agradecidos aos capitalistas pela ‘libertação’. E é totalmente ao contrário. Os países que viveram sobre a custódia do comunismo, tiveram seus problemas, sim, todos tem, porém, numa sociedade socialista o eu é secundária, e coisas fúteis, como assistir novela e comer em fastfood não tem tanta relevância. Você prefere que seu filho coma lagosta, e seja apenas um trabalhador simples, ou que ele não coma lagosta e seja um médico renomado?

O grande problema de países que vivem o capitalismo é esse. Achar que a nossa futilidade atinge países que tem projetos cidadãos concretizados voltados para o povo, e não para uma elite dominante.

A pesquisa faz questão de revela que não só foram entrevistados ‘velhos’ saudosistas, mas jovens que nasceram na Alemanha Oriental, como Birger, de 30 anos. “Não dá para dizer que a RDA era um estado ilegítimo, e que tudo está bem hoje. A maioria dos cidadãos alemães orientais tinha uma vida boa. Com certeza, não acho que aqui é melhor”, se referindo a unificação da Alemanha, realizada em setembro de 1991.

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Foto: Rogério Marques/foque.com.br

Vinte anos depois da queda do muro de Berlim, 57%, ou a maioria absoluta, de alemães orientais defendem seu antigo país. “A RDA tinha mais pontos positivos do que negativos. Havia alguns problemas, mas a vida era boa lá” (carta).

Por fim, o mundo pode até achar que o comunismo acabou, mas sem dúvida alguma, os comunistas estão bem vivos. Como dizia uma velha campanha de filiação do Partido Comunista Brasileiro [PCB], “Coração é vermelho e bate no lado esquerdo”.

 

[Citações retiradas da reportagem de Julia Bonstein, do jornal Der Spiegel; Tradução: Eloise De Vylder].


Foto da Semana

Julho 27, 2009
Foto: Bruno Rebouças/foque.com.br

Foto: Bruno Rebouças/foque.com.br

Virou corriqueiro. A agilidade do dia a dia nos deixou cegos e insensíveis. Deparamo-nos com crianças esfomeadas pedindo esmola e não nos sensibilizamos. Vemos homens pedindo comida, e nem mais olhamos para saber quem é. Um filho morrer assassinado na frente da mãe é normal, é irrelevante.

Na manhã de 24.07, este senhor dormia na calçada da Avenida Rio Branco, em cima de um carrinho que serve para carregar objetos. Talvez a fome e a fadiga obrigaram-no a parar e descansar em frente a uma loja no centro. O que mais estarrece são as pessoas passarem e não repararem o senhor que ali está.


A mídia que mata

Março 24, 2009

Bruno Rebouças – www.foque.com.br

A jornalista* levantou cedo como sempre fazia. Ainda na universidade, trabalhava como estagiária numa TV local. Saiu no seu carro a caminho da redação para mais um dia de trabalho. Numa das vias de acesso um acidente grave com dois automóveis. Curiosa, vai conferir se está tudo bem. Conversa com o bombeiro responsável e com uma das vítimas. Tudo bem, todos vivos. O acidente fora causado por falta de sinalização num cruzamento. Pega seu celular e liga para a redação comunicando sobre o ocorrido. Uma mocinha atende e chama o chefe de redação.

- Bom dia chefe, tudo bem? Diz a Jornalista.
- Bom dia, diz aí? Responde secamente o tarimbado Jornalista.
- É que no caminho da redação parei em um grave acidente envolvendo dois carros.       Podemos noticiar esse acidente – argumenta a jovem jornalista. Imediatamente o chefe de redação se empolga e pergunta: – Morreu alguém? A jovem, sentindo a empolgação do patrão, diz um não sem graça, e escuta um berro do outro lado da linha: – Então venha já para a redação! Tentando argumentar sobre a deficiência de sinalização no local a jovem jornalista tenta: – Mas… – Bruscamente interrompida, ouve: – Volte para a redação, tem pauta mais interessante. Notícia ‘boa’, é notícia ruim.

Nos últimos dois meses o número de mortes com arma de fogo na capital potiguar é de tirar a tranqüilidade da população. Segundo as páginas policiais morrem todos os dias, no mínimo, três pessoas, na maioria homens alvejados por tiros. No último sábado, o segurança de um fast-food foi executado na av. Salgado Filho. Em Ponta Negra, um acerto de contas. Na Redinha, dívida e envolvimento com drogas. Na maioria dos casos os entorpecentes são as principais causas, assim como um acerto de conta, que de tão caro, custa à vida de outrem.

Parece que por aqui, até pouco tempo uma cidade tranqüila em termos de assassinatos, descobriram a arma de fogo e se encantaram. Assaltos à mão armada colocam a vida de trabalhadores, estudantes, pais e mães de família em risco. A segurança pública, assim como a educação e a saúde, estão defasadas e o governo se preocupa apenas em sediar uma copa daqui a 5 anos.

Prato quente para a imprensa


Embarcando nos assassinatos da capital e interior do estado, a mídia entra na onda do ’se espremer sai sangue’, revivendo os velhos tempos da impressa marrom. Alguns vão dizer que o jornal só divulga o que interessa ao público. Sabemos que não é bem assim, pois só vão nas páginas dos jornais notícias que interessam aos proprietários e seu grupo político.

Para se ter uma idéia, no jornal Tribuna do Norte, só no caderno ‘Natal’, salvo as reportagens de violência, saíram três reportagens de assassinatos. Ambas, descrevem os crimes como aconteceram. Um jovem de 15 anos estava em casa, quando um outro rapaz o alvejou no peito. O jovem ainda foi levado para o hospital, mas faleceu. No fim da matéria: “O caso fica por conta da 8ª Delegacia de Polícia”.

Em outro ponto da cidade um jovem é assassinado, ’supostamente envolvido com drogas’. Leia o texto: “Os homicídios em série que vêm sendo cometidos na zona norte de Natal contra pessoas que têm envolvimento com drogas teve um novo capítulo trágico na noite desta terça-feira (18), desta vez na Favela da África, no bairro da Redinha. A vítima da vez foi o jovem João Paulo Batista da Silva, 20 anos, executado com quatro tiros em frente de casa”. O repórter escreve: ‘a vítima da vez’. Que sensibilidade! Uma espécie de amanhã continuamos, com a série mate e apareça no jornal. A morte mais espetacular será transmitida na TV.

Jornalismo de suposição


Cada dia que passa, a mídia se especializa em tentar adivinhar os fatos. No meio do texto, são descritos onde os tiros acertaram, parecendo um ranking, quanto mais perto da cabeça mais pontos. Mas o que chama a atenção é o entendimento do repórter que declara: “provavelmente disparados por um revólver calibre 38″. No parágrafo anterior, o repórter já diz no título: ’supostamente envolvido com drogas’. A mania de adivinhar fatos tira a exatidão da matéria e compromete sua veracidade. Esse pecado não é cometido somente por aqui, mas em todo o Brasil e no mundo. A Tribuna do Norte fez aquilo que José Arbex Jr. denúncia no seu livro, O Jornalismo Canalha, no capítulo ‘Jornalismo de Verificação X Jornalismo de Afirmação’. Afirmar fatos sem averiguar a sua procedência é um pecado gravíssimo.

Para não perder o costume, a matéria é encerrada com a frase: “O caso fica inicialmente com a 13ª Delegacia de Polícia da Redinha”.

E a reportagem que vendeu mais jornal é…


O campeão da rodada foi à morte de Rosemberg da Silva Alves, morto na Zona Norte, informação que vem destacada no texto, como se nas outras regiões de Natal não houvesse crimes piores. Com total desrespeito a família da vítima, e sem averiguar mais uma vez, o jornal diz que o crime “leva a crer que a motivação para a morte dele tenha sido um acerto de contas relativo à dívida por drogas”, segundo a Polícia. Por fim, a descrição da morte do homem de 27 anos é quase um filme. Em resumo, dois homens vinham numa moto Twister, pela Rua dos Caetés, no bairro de Santarém. Encontraram Rosemberg caminhando “tranquilamente”. Começaram a atirar e Rosemberg correu, mas de nada adiantou. A vítima levou um tiro na mão, um nas costas e dois na cabeça, não resistiu e morreu no local. “O caso será investigado pelo 12º Distrito Policial, em Santarém”. Em todas as reportagens ninguém foi preso, e a polícia não tem pistas dos assassinos. Além disso, todas as reportagens terminaram com a frase: “o caso será investigado”, mantendo um padrão tal qual uma receita de bolo, mudando só a quantidade dos ingredientes.

Vender é o que interessa


Por fim, muitos não vêem problema algum em publicar notícias e reportagens com esse teor. Mas uma coisa que não podemos esquecer é que a imprensa cumpre seu papel social quando fiscaliza os demais poderes. Não é isso que acontece por aqui. A Tribuna do Norte, o Diário de Natal, o Correio da Tarde, o Jornal de Hoje, com suas duas edições, e o site Nominuto.com, enchem os cidadãos de notícias sobre mortes para venderem suas páginas. Quando a matéria fica velha, de um dia para o outro, surgem novos casos. Esses são relatados com primor pela imprensa, apenas. Não há uma única matéria que denuncie o descaso com a segurança pública, além de não haver acompanhamento sobre as investigações. Quando o assunto cai na esfera do esquecimento, a polícia arquiva o caso e os assassinos ficam impunes para cometer novos atos de violência. Enquanto isso, a grande imprensa se esbalda nessas histórias e vendem a desgraça alheia aos demais cidadãos sem responsabilidade nenhuma, pois, para eles, “notícia ‘boa’, é notícia ruim” e o que realmente importa, é vender.

*Essa não é uma história de ficção. Uma amiga, jornalista, passou por isso em Natal, há alguns anos. Os nomes da jornalista e da emissora foram omitidos a fim de preservar a fonte jornalística.