[Bruno Rebouças, jornalista e editor de O Coletivo e autor de No terreno da Fantasia
“Nada além, nada além de uma ilusão”. Essas palavras soavam como profecia e tocavam o coração de um utópico com 69 anos de idade. Era madrugada do dia 9 de novembro de 1989, uma quinta-feira. Camilo não conseguira dormir; dali a horas o Muro de Berlim, ou da Vergonha, irá ruir. O fim estava próximo. O eixo soviético, que sempre deu as regras do mundo comunista, estava em crise. Países como Romênia, Tchecoslováquia, Hungria, Bulgária e Polônia já se desfizeram dos seus regimes ditatoriais. Na União Soviética, Gorbachev, eleito em 1985, começara a implantar reformas na economia estagnada. Um dos últimos redutos dos revolucionários era o tal muro. O partido está fragmentado, as ilusões perdidas. [...] Na TV, Sérgio Chapellin chama o repórter Ciro Bocanera, direto de Berlim, onde começa a maior transmissão da história da TV. [...] O primeiro guindaste se aproxima. Gente de todas as idades chegam perto do muro, onde anos antes seria impossível chegar. Pessoas que foram separadas pelo ódio ideológico, por um muro de 4 metros de altura por 162 km de extensão, estão prestes a se reencontrar. Vai começar a cair. [...] A primeira pancada. Cai a primeira viga. O povo, que até então só observava, corre e começa a arrancar pedaços do muro da vergonha como podem. Ao vivo na TV, em cores, o cinegrafista dá um close em dois homens, um com barba e o outro sem; um com uma foice o outro com um martelo. Contradição. Reflete Camilo [...]. Trecho retirado do romance-reportagem No terreno da Fantasia – uma história do PCB/RN nos anos 1980*, de Bruno Rebouças e Roberta Maia.
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Dia 9 de novembro fez 20 anos da queda do muro de Berlim, fato que concretizou a vitória do capitalismo sobre o socialismo real. Fato comemorado pelos países do ocidente, embora tenha causado tristeza na ala da esquerda pelo mundo. Todos os jornais do Brasil praticamente publicaram o fato em suas páginas. Umas boas reportagens, outras ruins coladas de agências internacionais. Todas alardeando e pegando depoimentos de pessoas separadas pelo ódio ideológico.
Verdade que sem o muro as coisas ficaram melhores, e que antes morreram muitas pessoas, nas tentativas de atravessar o muro da vergonha, como o ocidente costumava chamar. Está certo, também, que muitos que tentaram de forma legal, levaram não, ou conseguiram. Não é uma defesa, mas não podemos exagerar e manipular como fez toda a grande imprensa nesse dia tão especial para humanidade. Festas e comemorações marcaram os 20 anos da queda. Discurso ao pé dos restos do muro e insinuação da queda total em formato dominó fora realizado. Histórias marcantes e emocionantes contadas nas telas da televisão.
O fato deve ser comemorado e nunca esquecido. O muro foi construído pela Alemanha Oriental para o país da cidade capitalista ocidental. Berlim Ocidental foi transformada numa vitrine do capitalismo, onde os táxis eram Mercedes Bens. Tudo para manipular e corromper a realidade, de um sistema ambíguo como o capital, que produz riquezas para mil, e é alimentado pela miséria de milhões.
O muro foi construído em 1961, tinha 300 torres de vigilância e 162 km de extensão, muitos veículos de comunicação do RN publicaram, erroneamente, que seriam 155 km. Tinha 4,20m de altura, próximo ao portal de Brandemburgo, e em outras localidades era mais baixo. Estima-se que morreram 80 pessoas, identificadas; 112 ficaram feridas e milhares foram presas tentando atravessá-lo. Com a queda do muro de Berlim em 9 de novembro de 1989, foi decretado o fim da guerra fria. Dali a três anos, em 1992, a União Soviética também seria extinta e o mundo voltaria a ser polarizado pelo capitalismo. O passo mais importante da queda do muro foi a dita unificação das Alemanhas. Tal fato aconteceu em 3 de outubro de 1990.
UNIFICAÇÃO DE UM LADO
A unificação veio e a Alemanha, desde então, é uma só. Mas a imprensa não relatou uma pesquisa recente, que demonstra a desigualdade no tratamento entre os alemães ocidentais e os antigos orientais. A pesquisa foi publicada no jornal alemão Der Spiegel². Traduzida para o UOL. O Foque fez uma reportagem sobre tal pesquisa (leia a íntegra aqui) revelou que 57% dos alemães orientais (os comunistas) preferiam viver na antiga república, a hoje em dia na Alemanha Unificada.
A pesquisa revela vários aspectos, mas o principal, o que a maioria dos entrevistados disseram, foi em relação a solidariedade, igualdade e justiça que na atual Alemanha, ‘unificada’ e capitalista, não existem. “No que me diz respeito, o que tivemos naquela época foi menos ditatorial do que temos hoje. Quero ver salários iguais e pensões iguais para os moradores da antiga Alemanha Oriental”, relatou Schön um artesão que não revelou seu sobrenome.
“Sob a perspectiva atual, acredito que fomos retirados do paraíso quando o muro caiu”. Além da pesquisa boca a boca, os entrevistados responderam perguntas por cartas, e essa citação é de uma delas. A pesquisa revelou, ainda, que os cidadãos da antiga Alemanha Oriental são injustiçados em relação aos antigos alemães ocidentais [capitalistas]. Os ‘ex-comunistas’, recebem piores salários e não tem tanta liberdade, quanto os capitalistas dizem que oferecem. “A RDA [República Democrática Alemã] tinha, na maior parte, pontos positivos. A vida lá era mais feliz e melhor do que na Alemanha reunificada de hoje”, diz outro cidadão numa carta.
A pesquisa faz questão de revelar que não só foram entrevistados ‘velhos’ saudosistas, mas jovens que nasceram na Alemanha Oriental, como Birger, de 30 anos. “Não dá para dizer que a RDA era um estado ilegítimo, e que tudo está bem hoje. A maioria dos cidadãos alemães orientais tinha uma vida boa. Com certeza, não acho que aqui é melhor”, se referindo à unificação da Alemanha, em 1991.
Por fim, não faço defesa do muro, pelo contrário. A sua queda colocou fim numa era perigosa e de conflitos indiretos que poderiam ter acabado com o mundo, caso a guerra fria tivesse esquentado. Mas, é fato que a imprensa só publica o que lhe convém. Agendando e fazendo questão que a queda do muro seja uma glória do capitalismo e dos EUA, e entre em discussão em todas as esquinas, mesas de bares e rodas sociais novamente. Os pecados cometidos pelo mundo socialista e a censura do direito de ir e vir, não podem ser cometidos novamente. Mas a manipulação e defesa do capital pela mídia não podem passar batidos pelos jornalistas comprometidos com a história e a verdade.
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² Citações retiradas da reportagem de Julia Bonstein, do jornal Der Spiegel; Tradução: Eloise De Vylder].
Texto publicado no observatoriodaimprensa.com.br e no foque.com.br
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