Enquanto vereadores discursam em plenário, na sala de imprensa jornalistas e assessores torcem. Batem palma, gritam e vaiam… É um espetáculo audiência na Câmara de Vereadores, em Natal.
por Bruno Rebouças [jornalista que viu e ouviu o que os vereadores e jornalistas fazem em plenário]
Estava agitado o plenário da Câmara Municipal de Vereadores. No fim da tarde de 28.05, 13 vereadores, que a imprensa intitulou de ‘G-13’ haviam conseguido na noite de 27 de maio, quarta, antecipar a eleição para a mesa diretora da Câmara que se realizaria apenas em 2011. A verdadeira intenção, segundo rolava nos bastidores, era que os líderes do projeto, Júlio Protásio (PSB) e Edivan Martins (PV) queriam antecipar o resultado do inquérito da Operação Impacto*, na qual o juiz decidirá quem continua como réu ou não.
O fato concreto é que o ‘G-13’ bateu o recorde mundial de rapidez na votação de um projeto. É evidente que o projeto beneficia eles mesmos. O grupo conseguiu apresentar, votar e aprovar o projeto que adiantou a eleição, de 2011 para 2009, em menos de 24 horas.
Voltando. Estava tudo agitado na Câmara. Muitos jornalistas, assessores e civis lotaram o plenário da casa. Enquanto alguns vereadores discursavam sobre os agentes de saúde, todo mundo conversava sem dar à mínima. Logo começaram as discussões sobre a votação de logo mais. E de maneira arbitrária, Dicksson Nasser deu por encerrada a sessão, que até então, iria tratar do projeto sobre os Agentes de Saúde. Um grupo de seis vereadores correu em direção a mesa, lembrando que estavam escritos e, logo, a sessão não poderia ter fim sem eles serem consultados.
Enquanto isso, na sala de imprensa, os jornalistas e assessores trocavam informações, uns diziam que aquilo tinha sido manobra de Dicksson para que a população fosse embora. Coisa que realmente aconteceu. Outrora, alguns jornalistas acomunados com alguns assessores começaram a vaiar. Se eu estivesse com os olhos fechados, pensaria: ‘estou num estádio’.
Logo começou a gritaria e a algazarra. A ‘ordem’ foi estabelecida, e a primeira a falar foi a vereadora sargento Regina, que desceu o cacete nos demais vereadores que foram para cima da mesa. Regina foi contra o projeto e manteve seu voto assim até o fim. A vereadora do PDT chamou os parlamentares de ‘urubus’ fato que levou a galera da sala da imprensa ao delírio.
Você torcedor que já foi a um estádio, sabe quando seu ídolo dribla um adversário tão bem, que até os outros torcedores elogiam? Foi assim que aconteceu. Mais pessoas da imprensa chegavam e mais tumulto se fazia. A imprensa estava em festa. Teve jornalista que olhou para mim e disse: ‘se Dicksson continuar na presidência, não piso mais aqui’. Pensei: torcedor.
Júlio Protásio, citado na fala de Regina pediu a palavra. E aí foi gol em final de copa do mundo. Muitos jornalistas presente torciam pelo G-13, alguns queriam fazer, apenas, seu trabalho e outros, aturdidos, olhavam. Eu, no caso. Júlio começou a falar e o silêncio, pela primeira e última vez imperou. Júlio atacou o deputado federal Rogério Marinho, que já foi duas vezes presidente da casa e elegeu seu sucessor, Dicksson Nasser.
Protásio acusou Rogério de tentar manipular a eleição, declarando que os vereadores contra a votação estavam esperando o deputado chegar de Brasília, para junto do procurador Alexandre Magno, cancelar a votação. Ao fim, Júlio declarou que a base do deputado Rogério Marinho, que inclui todos os vereadores contrários a eleição, queriam enganar a opinião pública. Golaço. Assessores e jornalistas aplaudiram o vereador acusado na operação impacto. Concluí duas coisas nesse instante.
Uma: quem fala muito alto, reclama, ameaça, quando ouve um grito se cala e fala baixo. Sargento Regina pediu a palavra novamente, todos esperavam uma resposta e ela declarou: ‘parabenizo o parlamento, por que nem todos têm coragem de dizer o que o vereador Júlio Protásio disse’.
Duas: quando os políticos são ofendidos e acusados, perdem o coro parlamentar, incham e ficam vermelhos de ódio. Isso não se repete para a defesa do cidadão, apenas, para a própria defesa e a do seu grupo.
Ranieri Barbosa ainda tentou voltar a falar sobre os agentes de saúde mais ninguém deu à mínima. Júlio Protásio saiu do plenário e levou metade dos ‘urubus’. A outra ficou na sala de imprensa que parece um curral. Enquanto o vereador Ranieri ganhava tempo, os vereadores conversavam, jornalistas falavam de futebol e assuntos afins. Uns batiam no vidro tentando falar com Edivan Martins, candidato único a presidente. O fato é que as conversas, os risos fluíam como se fossem numa mesa de bar. O vereador Maurício Gurgel, cara de menino e mentalidade de criança… Apenas ria e ajeitava o terno. E os outros conversavam…
A ELEIÇÃO EM SI FOI UMA FACHADA
A partir das 18 horas de 28.05, Edivan Martins foi eleito o novo presidente da Câmara dos Vereadores. Ele assumirá o cargo em 1º de janeiro de 2011. A eleição foi uma fachada e todos já sabiam o resultado antes da mesma. Foram 17 votos a favor e um contra. Sargento Regina (PDT) manteve a postura e votou contra. Enildo Alves (PSB) e Dicksson Nasser (PSB) se retiraram da sessão, enquanto Luís Carlos (PMDB) absteve.
A mesa diretora será composta pelos vereadores, Edivan Martins (PV) – Presidente; Ney Lopes Júnior (DEM) - Primeiro vice-presidente; Julia Arruda (PSB) - Segundo vice-presidente; Maurício Gurgel (PHS) – Terceiro vice-presidente; Júlio Protásio (PSB) - Primeiro secretário; Albert Dickson (PP) - Segundo secretário; Adão Eridan (PR) - Terceiro secretário; Chagas Catarino (PP) – Quarto secretário.
A partir de janeiro de 2011, eles administrarão R$ 33 milhões anuais e poderão nomear 291 cargos comissionados num total de 586.
Por fim, a Câmara é uma fanfarronice. Assessores e jornalistas aplaudem, gritam e vaiam de acordo com o discurso ou vereador. Parece jogo de futebol. E, os profissionais da mídia são os torcedores… No curral, onde a imprensa fica, reina o barulho e a desordem.
***
*Operação Impacto:
Foi a operação deflagrada pelo Ministério Público Estadual, Polícia Federal, Polícia Civil e Polícia Militar. O objetivo é investigar supostas irregularidades na conduta de parlamentares no processo de votação das emendas do Plano Diretor de Natal. Cerca de R$ 94,4 mil foram apreendidos. Os vereadores foram acusados de corrupção passiva e ativa, e formação de quadrilha. As investigações tiveram por base denúncia de um suposto esquema de corrupção na Câmara Municipal de Natal feita pela procuradora do Município, Marise Costa à Promotoria de Defesa do Patrimônio Público.
Com a autorização da quebra do sigilo telefônico de 16 dos 21 vereadores, o Ministério Público conseguiu interceptar diversas diálogos nos quais tratam da divisão do dinheiro relativo à propina acertada que levaram os promotores Afonso de Ligório, Giovanni Rosado e Alexandre Frazão a confirmar a existência “do grave esquema de corrupção”.
Escrito por mediaalternativa
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